MP de Rio Preto manda investigar suspeita de transfobia contra advogada na PGM

MP de Rio Preto manda investigar suspeita de transfobia contra advogada na PGM
Bruna Isis da Silva Barbosa estranhou ao ser tratada de maneira jocosa - Divulgação

O Ministério Público de Rio Preto determinou a instauração de inquérito policial para investigar suspeita de transfobia, supostamente praticada por uma funcionária do gabinete da Procuradoria-Geral do Município (PGM) contra uma advogada. Áudios obtidos pela reportagem mostram que, ao contatar o órgão oficial por telefone, Bruna Isis da Silva Barbosa é tratada de maneira jocosa pela atendente, que ri e pede para ela “parar de falar com essa voz”.

Ao analisar a notícia-crime registrada pela vítima, a promotora Vanessa Ibarreche Santa Terra considerou que há indícios de injúria racial qualificada por discriminação à identidade de gênero e determinou a remessa do caso à Delegacia de Defesa da Mulher.

Ao Diário, a advogada Bruna Isis contou que, no dia 30 de setembro, entrou em contato telefônico com a PGM, no exercício de sua atividade profissional, buscando falar com um procurador municipal. A ligação foi atendida por uma jovem que, segundo apurado pela vítima, seria estagiária e estudante de Direito.

“Desde os primeiros momentos da conversa, ela me tratou de forma irônica, chegando a rir em vários momentos. A ligação foi transferida e um funcionário conduziu o atendimento de maneira adequada, prestando auxílio quanto à questão funcional que havia motivado meu contato”, explica.

Ao final da conversa, a advogada solicitou que a ligação fosse transferida para um responsável, para quem ela pretendia pontuar o constrangimento inicial. Só que o telefonema foi devolvido à suposta estagiária.

"AI, DE NOVO?"

Ao perceber que era Bruna novamente na ligação, a atendente iniciou a conversa com a expressão: “Ai, de novo?”. Na sequência, disse: “Para de falar com essa voz”.

A advogada explica que toda ligação realizada por ela no contexto profissional é gravada, motivo pelo qual registrou o diálogo sem saber que seria vítima de discriminação. Ela encaminhou o registro à reportagem e o arquivo confirma o relato.

Além de protocolar uma notícia-crime no Ministério Público, Bruna registrou uma reclamação contra o órgão no PoupaTempo, visando a apuração da conduta no âmbito administrativo.

“A Administração Pública deve atuar com respeito, impessoalidade, moralidade, boa-fé e dignidade no trato com aqueles que a procuram. E, quando se trata da advocacia, deve igualmente preservar o ambiente institucional necessário ao livre e adequado exercício profissional”, escreveu na manifestação.

BRINCADEIRAS

No documento, a advogada menciona ainda que, quando conseguiu falar com outra funcionária da PGM sobre a conduta inadequada da atendente, recebeu como justificativa que a secretária teria “confundido a ligação da reclamante com a ligação de um procurador que ‘brinca muito com ela’, dando a entender a existência de uma prática habitual de brincadeiras”.

Bruna pede que sejam identificados e responsabilizados a atendente e, se forem confirmadas as “brincadeiras” no telefone institucional, também o suposto procurador.

A Polícia Civil ainda não foi oficiada sobre a instauração de inquérito. Em nota, a PGM  informou que o gabinete do procurador-geral tomou conhecimento dos fatos nesta data (dia 21) e vai instaurar procedimento para apurar o ocorrido e a conduta atribuída à estagiária. "A Procuradoria-Geral do Município não compactua com nenhuma forma de discriminação e assegura, ao longo da apuração, o direito ao contraditório e à ampla defesa".