Clima seco dificulta plantio de milho verde

Clima seco dificulta plantio de milho verde
Plantio de milho verde exige mais cuidado do agricultor - Divulgação

Tradicional na culinária brasileira e um grão que pode ser bastante aproveitado para guloseimas como a pamonha e o curau, além de acompanhamento dos pratos salgados, o milho verde impulsiona a cadeia produtiva na agricultura familiar há muitos anos. Na região de Rio Preto, a disponibilidade de água para a exigente cultura do milho impôs algumas estratégias para os cultivos.

Atualmente, entre as estratégias para os cultivos regionais, os produtores contam com os sistemas de irrigação para manter o milho verde no campo diante de intempéries do clima, como a estiagem prolongada e a falta de chuva na janela de semeadura. Porém, ainda existem as áreas de sequeiro, ou seja, aquelas que não são irrigadas.

“Aqui no sítio em Jaci, onde mantenho o trabalho de anos com a família, tive que ampliar as áreas de plantio em propriedades que têm o pivô para irrigar o milho. Para atender o mercado com mais milho verde, resolvemos fazer parcerias no trabalho do plantio, do manejo e da colheita”, conta o produtor Paulo Roberto Castiglieri.

Cultura cuidadosa

Há 40 anos, Paulo cultiva milho verde na região de Rio Preto e conta que a tecnologia para os plantios impulsionou a cadeia produtiva do grão, que exige muitos cuidados no manejo, na colheita manual e nas pulverizações constantes de defensivo para combater as pragas e doenças. “Com o trabalho terceirizado, consigo ter o milho verde de qualidade. As pessoas que cultivam utilizam tecnologias, como os drones para a adubação e a pulverização com defensivo, que são semanais”, afirma.

Paulo realiza, com a família e os funcionários, o trabalho de limpeza das espigas de milho verde, ensacadas em sua maioria, e uma parte da produção, colocada em bandejas, pronta para abastecer os supermercados. Ele conta que a saca com 55 espigas (volume entre 21 e 24 kg) é comercializada a R$ 45, direcionada para as pessoas que se dedicam à fabricação de pamonhas.

A pesquisadora do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Cristina Fachini, explica que o milho verde, por ser colhido ainda imaturo, exige maior cuidado no manejo, colheita mais delicada e logística ágil, já que é altamente perecível. “Por outro lado, apresenta maior valor agregado, o que pode torná-lo atrativo economicamente, embora seus custos de produção sejam mais elevados”, pontua.

Cristina destaca ainda que, na região de Rio Preto, as condições climáticas impõem desafios adicionais. “O predomínio de períodos secos e a baixa disponibilidade hídrica tornam a irrigação praticamente indispensável, elevando significativamente os custos de produção. Sistemas como gotejamento ou aspersão são frequentemente utilizados, mas o custo da água e da energia tem levado alguns produtores a reduzir ou abandonar o cultivo de milho verde”, ressaltou a pesquisadora.

Tradição agrega valor
O cultivo de milho verde no estado de São Paulo está bastante ligado à tradição cultural das festas juninas, conforme a pesquisadora do IAC. Historicamente, agricultores organizavam o plantio com base em referências do calendário religioso popular, como o costume de “plantar no São José, em 19 de março, para colher no São João, em 24 de junho”. Segundo Cristina, essa tradição da cultura brasileira associa a colheita às festas juninas, onde há o maior consumo de alimentos típicos como pamonha, curau e milho cozido.

Mas para o agricultor Milton Perozin, a fabricação da pamonha é uma receita de família, que vem desde a época dos avós e continua com os filhos dele, na elaboração de uma pamonha muito caseira, que leva a marca de “Pamonha Pura”. Durante todo o ano, o agricultor, que também atua como feirante, abastece com a guloseima as feiras de Rio Preto.

“A nossa pamonha é natural, não agrego gordura e nem fubá, apenas o milho de boa qualidade. É pamonha pura mesmo e agrego valor porque não tenho funcionários, somente a família produz a pamonha e o curau. Hoje, o custo de produção do milho verde é muito alto, mas os consumidores também não dispõem de muito dinheiro. Por isso, vendo a pamonha a R$ 10, e há muito tempo estamos com esse valor”, afirmou.

No sítio em Cedral, Milton cultiva o milho verde e conta que as mudanças climáticas para o plantio transformaram também o mercado do grão. “Plantei esse ano, mas com a falta de chuva na época da semeadura, perdi uma parte da lavoura, entre 1 mil e 1,5 mil sacas. A gente planta mais no período das águas, porque o rio que passa lá não suporta o sistema de irrigação”, comenta.

Ao longo dessas quatro décadas dedicadas ao cultivo do milho, Milton destaca que a estratégia para manter a fabricação da pamonha é ainda comprar o cereal de outras regiões. “A gente compra o milho verde de produtores de Guaíra, cidade que possui bastante recurso para irrigar as lavouras, e assim não deixamos de entregar uma pamonha de qualidade.” (CC)

Pesquisa de variedades
Na pesquisa, o IAC tem investido no desenvolvimento de híbridos para milho verde, com foco em alta produtividade, qualidade e adaptação a diferentes condições. De acordo com a pesquisadora, a variedade AG 1051, que já foi bastante difundida no mercado de milho verde, ainda pode ser encontrada em algumas regiões, mas vem sendo substituída por híbridos mais modernos, que oferecem melhor desempenho agronômico e maior qualidade pós-colheita.

“Muitos agricultores não utilizam variedades específicas para milho verde, optando por plantar milho de grão. Apesar de a estratégia oferecer maior flexibilidade na comercialização, a qualidade do produto pode ficar comprometida, já que essas variedades não foram desenvolvidas para esse fim, resultando em menor qualidade culinária e menor vida útil após a colheita”, afirmou. (CC)

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Milton Perozin produz milho verde e fabrica a pamonha