Exposição 'Fazeres' reúne 14 obras inéditas sobre vida em Uchoa
Uma cadeira convida o visitante a se deitar e ouvir. Em outra parte do espaço, 33 retratos registram moradores de Uchoa encontrados durante uma residência artística. Há ainda cerâmicas, esculturas, trançados, empapelamentos e trabalhos sonoros. Em comum, as 14 obras da exposição “Fazeres” tiveram uma matéria-prima que não se compra em loja: os conhecimentos transmitidos por artesãos do município e da região. Realizada pela primeira vez em Uchoa, a mostra foi encerrada recentemente, mas o projeto que a originou continua com uma programação de atividades voltadas à arte e à economia criativa.
A MOSTRA
A exposição reuniu trabalhos dos artistas Marilia Vasconcellos, Marcelo Bressanin, Ronaldo Gifalli, o Gifa, e Zé Otavio, produzidos a partir de uma residência artística de 20 dias realizada em junho, no Sítio do Domy. Durante o período, os quatro conviveram com mestres de diferentes ofícios e aprenderam técnicas que depois foram incorporadas às próprias criações.
Entre os artesãos envolvidos estão os Irmãos Binatti, luthiers de viola caipira; Valdomiro Domingos de Faria, o Miro, especialista em trançado com tubetes plásticos; Márcia da Soledade Franca, do crochê; Sônia Mendes Roschel Buongiovanni, do macramê; Carolino, carnavalesco à frente do Museu do Carnaval de Uchoa; Luís Gaúcho, da costura em tapeçaria; Benedito Mendes, do artesanato em couro; Maria Eugênia Corrêa Morais, da cerâmica; Fábio Guardia, da cutelaria; Nilva Pavarini, das cabaças; e Tibira, do entalhe em madeira.
Para Marilia, artista visual e fotógrafa que participou da mostra e mora em Uchoa, a troca de conhecimentos está no centro da proposta.
“As obras que compõem ‘Fazeres’ nasceram do chão de Uchoa, do convívio diário e dos corações e mentes que compartilharam seus conhecimentos. Durante nossa convivência com os artesãos, cada criação foi brotando como quem escuta a terra: esculturas, cerâmicas, arte sonora, empapelamentos, trançados, ilustrações — todas inéditas, todas atravessadas pelas técnicas que aprendemos com os mestres. É como se cada peça carregasse um pouco do gesto de quem nos guiou e um pouco do nosso próprio espanto diante da força desses fazeres”, conta ela.
OS TRABALHOS
Entre os trabalhos apresentados estava “Desaceleração”, de Bressanin, instalação que convidava o público a se deitar em uma espreguiçadeira feita de tubetes plásticos e equipada com seis caixas de ressonância de papel kraft e resina acrílica. As técnicas foram aprendidas com Miro e Carolino.
O artista também apresentou “Urutau”, instalação sonora formada por um galho seco de cerca de 1,80 metro de altura e caixas de ressonância produzidas com cabaças naturais, além do álbum experimental “Sítio Domy”, com três faixas, entre elas “Hiperviolas”, inspirada no trabalho dos Irmãos Binatti.
Marilia apresentou “Õpía”, instalação que combina desenhos e texturas sobre chapas de alumínio aplicadas a placas de palha trançada, em diálogo com a técnica de cutelaria aprendida com Fábio Guardia. Também fizeram parte da mostra “Eco”, mesa e cadeira de metal suspensas e revestidas por trançados, e “Impronta”, conjunto de esculturas feitas a partir de moldes de tecido para tapeçaria.
Já Gifa apresentou seis trabalhos que incorporaram cerâmica, cabaças e empapelamento, entre eles “Jardim”, instalação que reunia esculturas de cerâmica, cumbucas de papel e resina acrílica, tubetes de plástico, aço e argila expandida. Ele também assinou, em parceria com Bressanin, a instalação sonora “Oco”.
Zé Otavio, por sua vez, transformou em obra o próprio encontro com os moradores. Seu “Sem Título” reuniu em uma parede um assemblage com 33 retratos de personagens que cruzaram o caminho dos artistas durante a residência.
A mostra contou ainda com mediação de arte-educadores, audiodescrição por QR code e interpretação em Libras.
Continuação do projeto
O encerramento da mostra não marca o fim do projeto “Fazeres”. Em outubro, quatro workshops gratuitos serão realizados na Estação Cultura de Uchoa, conduzidos pelos artistas participantes da residência.
No dia 23, Zé Otavio ministra uma oficina de ilustração de retratos com técnica mista, utilizando lápis, canetas e colagem. No dia 24, Marilia Vasconcellos apresenta um workshop de criação de objetos em latonaria, com desenho sobre placa de alumínio.
A programação continua nos dias 30 e 31. Bressanin conduz o workshop “Vamos falar de escuta?”, com experimentos práticos, enquanto Gifa apresenta uma oficina de biojoias, voltada à criação de peças com massa cerâmica.
Os horários e as informações sobre inscrições serão divulgados na bio do Instagram @residenciafazeres.
Em novembro, o projeto promove ainda a Feira de Economia Criativa, que reunirá até 30 empreendedores locais. O evento será realizado em 1º de novembro, das 10h às 18h, no Salão do Trabalhador, no bairro São Miguel, em Uchoa.
A feira terá também duas palestras: uma sobre as particularidades do processo de residência artística e outra com um especialista em economia criativa. As inscrições gratuitas para artesãos estão disponíveis na bio do perfil @residenciafazeres. (SB)

Redação 



