Jornalista Milton Rodrigues lança a 2ª edição do livro 'Avenida da Saudade'
A memória do futebol do interior paulista tem seus próprios heróis, suas tardes épicas e suas arquibancadas cheias de histórias. Em Rio Preto, um desses capítulos volta agora às mãos dos leitores com a segunda edição de “Avenida da Saudade, o América de Rio Preto na Era Pelé”, livro do jornalista Milton Rodrigues que retorna ao público justamente no mês de aniversário da cidade. O relançamento foi motivado pela forte procura de leitores e torcedores, especialmente após a morte de Edson Arantes do Nascimento, momento em que a lembrança da chamada Era Pelé voltou ao centro das conversas e reacendeu o interesse por episódios marcantes daquele período. A nova tiragem, limitada, chega ao público ao preço de R$ 70 por exemplar.
Cuidado documental
A obra reconstrói a trajetória do América entre 1957 e 1973, fase em que o clube viveu alguns de seus momentos mais emblemáticos diante de grandes adversários. Entre os episódios mais lembrados estão os confrontos contra o Santos Futebol Clube, então liderado por Pelé. Eram partidas que mobilizavam as cidades, lotando o Mário Alves Mendonça e a Vila Belmiro.
Um dos méritos do livro está no cuidado documental. A publicação reúne todas as fichas técnicas dos jogos entre América e Santos naquele período, com escalações completas, datas, resultados e detalhes que interessam tanto a pesquisadores quanto a torcedores apaixonados por estatísticas.
Além desse levantamento histórico, o livro ganha dimensão ainda maior ao trazer uma entrevista com o próprio Pelé, concedida por ele ao jornalista Milton Rodrigues e publicada originalmente no Diário da Região. O depoimento do Rei estabelece uma ponte entre o futebol do interior paulista e o cenário mundial que ele ajudou a transformar, ampliando o alcance da obra para além da memória regional.
“Mais do que um registro esportivo, ‘Avenida da Saudade’ também contextualiza a história de Rio Preto no mesmo recorte temporal, mostrando como o desenvolvimento urbano, as mudanças sociais e o crescimento econômico da cidade caminharam lado a lado com o fortalecimento do América”, afirma o autor.
MEMÓRIA ESPORTIVA
A primeira edição do livro foi lançada em 2004, pela editora do historiador Lelé Arantes, que também assina o prefácio da edição atual. Para Deodoro Moreira, diretor da Editora Serifa, responsável pela nova publicação, o retorno da obra ao público confirma a força da memória esportiva da região.
“Esta segunda edição reafirma o valor cultural do livro e sua importância para a preservação da memória esportiva regional. Impulsionado pela saudade e pela redescoberta provocada pela morte de Pelé, o relançamento confirma que a história do América na Era Pelé continua viva no imaginário dos torcedores”, afirma.
Pelé em tinta e memória
A capa de “Avenida da Saudade, o América de Rio Preto na Era Pelé” carrega também uma história própria, nascida do olhar de um artista profundamente ligado ao futebol da cidade. A imagem que ilustra o livro é o quadro “Gol do Santos”, pintura criada em 1995 pelo artista plástico Daniel Firmino, rio-pretense com mais de cinco décadas de carreira.
A obra que estampa a capa do livro surgiu de uma encomenda feita em 1995 pelo então secretário municipal de Esportes, Alcides Zanirato, e pelo prefeito Manoel Antunes. A intenção era entregar a pintura a Pelé, que à época ocupava o cargo de ministro dos Esportes e participaria da abertura dos Jogos Abertos do Interior em Rio Preto.
Pelé não chegou a comparecer ao evento, mas o quadro foi concluído e acabou sendo adquirido pela Prefeitura. Atualmente, “Gol do Santos” integra o acervo do Museu de Arte Primitivista.
“Nesse quadro mostro o Pelé comemorando um gol em jogo contra o América, naquele tradicional gesto de soco no ar, e aparecem muitos personagens, jogadores do América, como o Ambrózio, e mesmo o Noriva, que era de Rio Preto e depois foi jogar no Santos com o Pelé”, diz Firmino.
A relação do artista com o futebol começou ainda na infância. Torcedor do América desde os oito ou nove anos, ele frequentava o antigo estádio Mário Alves Mendonça e, como muitas crianças da época, encontrava maneiras criativas de se aproximar dos ídolos.
“Com o Pelé eu não cheguei a falar naquela ocasião, mas bem antes eu fui abençoado por ele com um tapa na minha cabeça”, brinca.
Ele se lembra dos tempos em que, junto com outros meninos, se oferecia para carregar as malas dos jogadores visitantes. Ao ajudar a levar a bagagem de Pelé até os vestiários, acabou recebendo um afago do Rei — e, de quebra, garantiu entrada gratuita no estádio.
Sem internet e com poucas televisões disponíveis na época, muitas das imagens que depois apareceriam em suas pinturas nasceram da imaginação alimentada pelas transmissões de rádio.
“Não tinha internet, era raro quem tinha televisão, então eu me inspirava no que os locutores falavam e ia imaginando”, conta.
Entre as histórias de sua trajetória artística, Firmino lembra ainda de um encontro improvável. “Pintei o quadro ‘Futebol na Casa Verde’ e entreguei pessoalmente ao Nelson Mandela, em homenagem a ele em São Paulo, em 1998.”
Hoje, o artista segue trabalhando em novas telas e já prepara uma obra inspirada em um confronto que une passado e presente do futebol paulista: o duelo entre Mirassol e Corinthians. (SB)

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