Entre tempestades e glórias, América completa 80 anos
"Houve uma terra de cavaleiros e campos de algodão denominada 'O Velho Sul'. Neste mundo, o galanteio fez sua última mesura. Aqui foram vistos pela última vez: cavaleiros e suas damas… Senhores e escravos. Procure-os apenas nos livros, pois não passam de um sonho a ser relembrado. Uma civilização que o vento levou…"
A introdução do filme “E o vento levou”, que conta a saga de Scarlett O'Hara e Clark Gable, anunciado na fachada do Edifício Curti, onde ficava o Cine São Paulo na Rio Preto do final dos anos 1940, hoje até parece relembrar uma outra longa história que, ali mesmo, começaria pouco tempo depois, em 1946. E seguiria por 80 anos, a despertar todo tipo de sentimento. Mais amor do que ódio, tudo temperado por tórridas paixões, que o tempo não conseguiu apagar.
Foi exatamente nesse local, encravado no centro de Rio Preto, que em 28 de janeiro de 1946 nasceu o América Futebol Clube, hoje completando 80 anos de fundação, depois de ter escrito uma história que o vento não levou e que os dirigentes atuais lutam pela sua continuidade, de preferência à altura dos seus tempos de glória. Não será fácil: o time que já foi destaque na elite do futebol estadual e até disputou o Brasileirão em 1978 e 1980, amarga a última divisão paulista.
A ata de fundação traz uma curiosidade digna de registro, em que os presentes fizeram questão de documentar para a posteridade sobre aqueles tempos sombrios: “Sugeriu o Sr. Dr. Antonio Tavares Pereira Lima [primeiro presidente] que se batizasse o novo clube com o nome América Futebol Clube, por se tratar de um nome simpático, prestando-se assim uma homenagem a esta parte do mundo que tomou a si o encargo de salvá-lo das garras do nazismo”. Uma referência em forma de repúdio ao extremismo do ditador alemão Adolf Hitler, morto em abril do ano anterior.
Gerado sob a inspiração de “E o vento levou”, reapresentado muitas vezes no Cine São Paulo desde o início dos anos 40, porém, o América só foi nascer mesmo para o futebol fora da cidade. Tinha time, mas não tinha estádio (o Mário Alves Mendonça só seria inaugurado dois anos depois). O rival Rio Preto EC não emprestou a sua já moderna arena, para os padrões da época, o Victor Brito Bastos, na Redentora. O novo clube tentou o Palestra, mas choveu e a baixada palestrina virou um lamaçal. Pois foi assim que o time entrou em campo pela primeira vez fora de Rio Preto: no estádio do Mirassol, que ficaria depois conhecido como estádio Giocondo Zancaner. Era o dia 17 de março de 1946.
Atualmente, sob a presidência de Marcos Villela, o América FC tenta se reerguer, pagando contas atrasadas, inclusive dívidas trabalhistas, tentando corrigir anos de desmando, fechando algumas parcerias importantes com empresas tradicionais. Uma luta em busca do resgate da credibilidade de um clube que já foi muito vitorioso, vencendo até o Santos do Rei Pelé. Agora, aguarda a confirmação oficial para voltar a disputar a Série B paulista, a quinta divisão, a partir de abril, depois de um ano sem futebol profissional, algo que até então havia acontecido só uma vez, em 1951.
FICHA TÉCNICA
AMÉRICA 3 X 1 A.A. FERROVIÁRIA
17/03/1946 – Amistoso
AMÉRICA: Bob; Hugo e Edgar; De Lúcia, Quirino e Miguel; Morgero, Dema, Pereira Lima (Nelsinho), Fordinho e Birigui. Técnico: Zezinho Silva.
A.A.FERROVIÁRIA: Monteiro; Nico e Zico; Franklin, Roberto e Tijolo; Aristides, Lima, Sacarrolha, Bil e Tico.
Gols: Quirino (falta) e Fordinho (cabeça) para o América e Sacarrolha para a Ferroviária no 1º tempo; Dema para o América no 2º tempo.
Estádio: Giocondo Zancaner, em Mirassol.
Renda e público: não obtidos.
Juiz: José Nicoletti Sobrinho.
Obs.: a Associação Atlética Ferroviária foi a precursora da Associação Ferroviária de Esportes, de Araraquara.
Time vai disputar a 'Bezinha' 2026
Marcos Vilela, presidente do América desde 2024, afirma que o time volta a disputar o Campeonato Paulista em 2026. No ano passado, por falta de documentação e de laudos de aprovação do estádio Benedito Teixeira, o Teixeirão, a equipe profissional ficou parada.
Qual é a dívida atual do América?
Vilela - Entre R$ 15 milhões na Justiça trabalhista e R$ 15 milhões de outros compromissos, podemos dizer que está em torno de R$ 30 milhões, que estamos administrando, negociando com os recursos que vão entrando aos poucos.
E qual é o patrimônio do clube?
Vilela - Só o estádio Benedito Teixeira, se fosse para construir um igual hoje, não seria menos que 400 milhões, 500 milhões. É um grande estádio, que estamos recuperando, estruturando para a competição e outras atrações. É difícil, só a manutenção custa em torno de R$ 40 mil por mês, mas está sob controle.
O América já está garantido no próximo Campeonato Paulista (Série B)?
Vilela - Sim, já participamos do pré-Arbitral, apresentamos toda a documentação, está tudo em ordem e vamos disputar. Em 11 de fevereiro a Federação Paulista define a disputa e em 19 de abril começamos a jogar.
E a montagem do time?
Vilela - No início de fevereiro começamos com uma parte dos jogadores do Sub-20, mas já estamos conversando com atletas de várias divisões.
Já tem o técnico?
Vilela - Ainda não.
Quanto deve custar a folha de pagamento?
Vilela - Em torno de uns R$ 60 mil. Estamos com 60% dos patrocínios para a temporada já firmados e ainda vamos fechar com outros, inclusive com o da camisa
O América vai voltar a pulsar e ser um clube à altura de suas tradições?
Vilela - Entre desafios e sacrifícios, permanece a esperança de ver renascer um clube cuja história jamais deixou de pulsar.

NASCIDO AQUI Estádio Giocondo Zancaner, em Mirassol, onde pela primeira vez em sua história de 80 anos o América entrou em campo

Redação 



