Geração Z redefine o casamento ao questionar tradições e reinventar celebrações

Geração Z redefine o casamento ao questionar tradições e reinventar celebrações
Vestidos rígidos e excessivamente tradicionais perdem espaço para peças leves, confortáveis e alinhadas ao estilo de vida da noiva - Divulgação

O casamento, por décadas associado a rituais rígidos, protocolos sociais e expectativas familiares, passa por uma transformação profunda. Impulsionado pela Geração Z, o “sim” deixa de ser um marco obrigatório da vida adulta para se tornar uma escolha consciente, carregada de significado, questionamentos e liberdade individual.

Mais do que mudar a forma de celebrar, essa geração está redesenhando o próprio sentido do casamento, desde o compromisso emocional até a estética da cerimônia, passando pelas expectativas de felicidade, autonomia e pertencimento. Trata-se de uma mudança cultural que atravessa comportamento, relações e valores.

GERAÇÃO FLUIDA

Do ponto de vista social e cultural, essa transformação revela um afastamento claro de scripts tradicionais que antes eram seguidos quase automaticamente. Para a psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbisan, a Geração Z se diferencia por colocar o sentir e o simbólico acima da obrigação social.

“É uma geração mais fluida no modo de se relacionar. Essa fluidez tem um significado mais flexível, mais agregador. São scripts sociais que eles não levam mais adiante da mesma forma que as gerações anteriores levavam. Eles não empurram para frente automaticamente. Eles param, pensam e veem o que querem fazer com eles mesmos, o que querem fazer da própria vida.”

Segundo Thaís, o compromisso deixa de ser encarado como um ponto final e passa a ser entendido como parte de um percurso. “É uma geração que valoriza o emocional. As prioridades mudaram. Não é casar porque quero casa, carro ou apartamento. É casar porque quero, ou não casar porque não quero. Ou seja, se colocam acima das obrigações e dos rituais familiares e sociais aos quais a geração anterior se apegava.”

Essa mudança também está diretamente ligada à revisão de prioridades. “Apesar de estarem imersos nas redes sociais — que muitas vezes também funcionam como uma espécie de máscara social para engajamento —, a geração Z busca relações mais significativas. Eles não têm medo de dizer “não”, mas também não têm medo de dizer ‘eu te amo’.”

O afastamento de rituais rígidos não significa, necessariamente, uma rejeição completa da tradição, mas sim uma tentativa de ressignificá-la. Para Thaís, trata-se de um movimento de ruptura consciente. “É uma geração que veio romper — e, para romper, é preciso questionar. Questionar modelos, buscar sentido, buscar conexões reais e não apenas repetir padrões. Mais do que seguir o que sempre foi feito, eles buscam vínculos que façam sentido para quem são hoje”

Ao mesmo tempo, ela destaca que essa liberdade traz novos dilemas. “Claro que existem ansiedades e conflitos. Mas, para uma geração que tem tudo na mão e tantas facilidades, se relacionar virou algo mais fácil, por vezes descartável e experimental, mas também mais consciente, com maior autorização para mudar, escolher e se reposicionar. É a geração do apego ao desapego”, afirma Thaís.

IDENTIDADE

Essa transformação cultural também impacta diretamente o universo da moda e da estética do casamento. Para a estilista Patrícia Granha, especializada em vestidos de noiva sob medida, o casamento contemporâneo deixou de ser uma resposta às expectativas externas. “O casamento deixou de ser um cumprimento de expectativas externas. Hoje, ele é uma escolha que precisa fazer sentido para o casal, para a história que eles querem contar e para a vida que constroem juntos.”

No ateliê, o processo começa muito antes do desenho do vestido. “Hoje, quando uma noiva chega ao ateliê, ela não começa falando de vestido. Ela fala de quem é, do tipo de celebração que imagina, do que faz sentido para sua vida. O vestido passa a ser consequência dessa identidade, não o ponto de partida”, explica Patrícia.

Vestidos rígidos e excessivamente tradicionais perdem espaço para peças leves, confortáveis e alinhadas ao estilo de vida da noiva. “O vestido de noiva deixou de ser fantasia. Ele se aproxima cada vez mais da moda, do design e da arquitetura. A noiva quer se sentir bonita, confortável e coerente com quem ela é — não disfarçada”, afirma a estilista.

Mais do que uma mudança estética, o que a Geração Z propõe é uma revisão profunda do significado do casamento. Autenticidade, coerência emocional e liberdade de escolha passam a ser valores centrais. “O casamento contemporâneo é mais silencioso, mais consciente e mais verdadeiro. Ele fala menos para os outros e mais para quem vive aquele momento”, resume Patrícia Granha.

Autonomia, solidão e vínculos

 

A psicanalista Josefa Maria Dias da Silva Fernandes analisa o fenômeno sob o viés emocional e psicológico e observa uma relação ambígua da Geração Z com o casamento. Embora muitos jovens não vejam o casamento civil como essencial para validar uma relação, o desejo de casar ainda aparece nos discursos.

“Por décadas, a família nuclear foi objetivada. O sonho de constituir uma família a partir do alcance da independência financeira. Atualmente, uma significativa amostra da população, a Geração Y e da Geração Z, pensam que não é necessário um casamento civil para validar um relacionamento significativo. Porém, é curioso que, no discurso de alguns jovens, revela-se o desejo casar-se um dia.”

Josefa aponta que autonomia e sucesso profissional ocupam lugar central, mas não sem custos emocionais. “A Geração Z prioriza o sucesso profissional e financeiro em primeiro lugar, valorizando a autonomia e liberdade. Porém, há um desafio a esse ideal, alguns tornam-se solitários e um temor da invisibilidade.”

Mesmo hiperconectados, esses jovens enfrentam dificuldades na vivência da intimidade presencial. “Apesar de serem jovens que se conectam virtualmente, não se comunicam verbalmente e não vivem a intimidade que a presença do encontro favorece.” Segundo Josefa, normalmente os adolescentes de qualquer época falam pouco e escutam menos ainda, mas nos Z, o isolamento e fechamento se acentuam.

A psicanalista observa que para expressar emoções, eles utilizam memes, gifs e stories, como referências. Além disso, grande parte da energia psíquica é canalizada em conferir informações e reações nas redes. As consequências disso ainda são obscuras para a ciência, mas há probabilidade de índices significativos de jovens com depressão.”

Esse novo olhar sobre vínculos e emoções também se reflete na forma de celebrar. Segundo a psicanalista, há uma mudança clara nos valores simbólicos das comemorações. “Acredito que os valores simbólicos de alguns modelos de celebrações estão mudando. Trata-se de uma geração que por trás das telas, pulsa a energia de quem não quer consumir o mundo, mas reinventá-lo. Inclusive a comemoração da união surge com festas mais privativas, temáticas criativas e autorais.” (FM)