Mais jovens buscam estabilidade, mais velhos querem flexibilidade
Depois de muitos anos como CLT, a empregada doméstica Aleksandra Maria da Silva, de 54 anos, resolveu pedir demissão. Ela está no final de seu aviso prévio e depois vai trabalhar por conta, atuando como faxineira fixa em algumas residências. A decisão foi tomada porque ela estava buscando mais flexibilidade de horários e passar mais tempo com a neta, a pequena Hadassa, de 9 meses.
Aleksandra exemplifica uma tendência identificada em uma pesquisa da Serasa Experian: CLT continua a queridinha entre 78,7% dos brasileiros que buscam emprego, mas caiu pela metade entre os baby boomers (nascidos entre as décadas de 1940 e 1960, logo após a Segunda Guerra Mundial, pessoas que têm entre 60 e 80 anos).
“A gente também pode ter estabilidade por conta própria. Minha carga horária está muito intensa e, a partir de agora, posso escolher os dias em que quero trabalhar e continuar pagando o INSS. Não terei FGTS nem décimo-terceiro, mas posso escolher fazer uma poupança e guardar com responsabilidade”, acredita Aleksandra, que trabalhava também aos sábados. “Estou desacelerando, quero trabalhar menos dias e vou acabar ganhando mais.”
De acordo com a análise da Serasa, a preferência pela CLT chega a 92,6% na geração Z, caindo para 50% entre os baby boomers. Nesta faixa etária, 36,8% pretendem trabalhar enquanto tiverem saúde e disposição.
GERAÇÕES
Ana Carolina Reis é exemplo da estabilidade que os mais jovens ainda preferem. Entre os millennials (nascidos entre 1981 e 1996) e a geração Z (que vai de 1997 a 2010), a CLT é preferência de 92,6%, aponta a Serasa. A enfermeira de 35 anos trabalha há 20 anos com carteira assinada. “Prefiro esse regime por me sentir mais segura, tenho mais estabilidade, benefícios, rotina a longo prazo e direito a férias”, enumera Ana Carolina. “Já empreendi. Vendi semijoias e gostei muito, mas levaria em paralelo.”
Iramil Bueno de Araújo, de 65 anos, superintendente comercial da Rodobens Seguros, não dispensa a CLT. Na mesma empresa, tem 39 anos de trajetória. “Eu prefiro esse modelo porque ele me coloca dentro de um ambiente que favorece entrega consistente e evolução contínua. Ter acesso à estrutura, troca com outras pessoas, direcionamento claro e um alto nível de organização no dia a dia faz com que eu consiga focar melhor no que importa”, considera.
AVALIAÇÕES
O financista e consultor estratégico Lucas Borges acredita que ter benefícios e renda previsível continua sendo um fator importante na busca por um emprego, principalmente para quem está começando agora no mercado. “Os números mostram que diferentes gerações enxergam o mercado de trabalho de formas distintas, o que é algo natural: os mais jovens tendem a priorizar estabilidade, enquanto os mais experientes valorizam mais autonomia e flexibilidade”, explica.
A socióloga Niminon Pinheiro comenta que os baby boomers sempre valorizaram a estabilidade, mas que o perfil de oportunidades também mudou. “Hoje há mais vagas disponíveis para autônomos e freelancers, além da questão do conhecimento acumulado ao longo da vida, e que vale consultorias, dentre outras formas de prestação de serviços”, diz.
Everton Maurício Alves, diretor de Recursos Humanos e Gestor da EARH Soluções em Gestão de Pessoas, também acredita que as diferenças de preferências vêm dos diferentes momentos de vida e de carreira.
“Enquanto os profissionais mais jovens priorizam o regime tradicional para mitigar riscos econômicos, garantir benefícios essenciais (como plano de saúde) e construir uma base financeira sólida no início da jornada, os baby boomers - já estabilizados e detentores de um vasto capital intelectual - abrem mão dessa estrutura em busca de autonomia, flexibilidade e qualidade de vida”, afirma.
Reinvenção profissional
A disposição para mudar de carreira acompanha esse movimento. No total, 69,1% dos brasileiros dizem estar abertos a mudar de carreira nos próximos anos. Entre as gerações, esse movimento é mais intenso justamente entre os profissionais mais experientes: 82,3% dos baby boomers afirmam estar abertos à reinvenção, percentual superior ao observado na geração X (70,9%), millennials (69,4%) e geração Z (56,1%).
Segundo gerente de Recursos Humanos da Serasa Experian, Fernanda Guglielmi, “os dados mostram que a reinvenção profissional não está restrita ao início da carreira e ganha força entre os profissionais mais experientes, acompanhando mudanças nas prioridades e na forma como eles se relacionam com o trabalho ao longo do tempo”.
Essa maior abertura também se reflete na forma como os profissionais projetam sua permanência no mercado. Entre os baby boomers, 36,8% afirmam que pretendem trabalhar enquanto tiverem saúde e disposição. Nas demais gerações, a permanência no mercado ainda aparece mais associada a marcos etários, mas já aponta para carreiras prolongadas. Entre os profissionais da geração Z, 24,6% se veem ativos até os 50 anos e 29,7% até os 60. Entre millennials, 34,8% pretendem trabalhar até os 60 anos, enquanto na geração X, 42,3% projetam atuação entre os 60 e 70 anos.
OS DADOS
Os dados fazem parte da série Panorama do Trabalho, mapeamento realizado pela Serasa Experian para analisar diferentes aspectos da relação entre profissionais e empresas no país. O levantamento que compõe este capítulo foi realizado entre novembro e dezembro de 2025 com 1.521 profissionais economicamente ativos ou em busca de emprego, de diferentes gerações e regiões do Brasil. A amostra é representativa da população pesquisada e a margem de erro do estudo é de 3%. (MGS)

Iramil - Rodobens Seguro

Redação 



