Ana Paula Ribeiro completa três décadas no Hip Hop
Três décadas depois de começar a dançar sem saber exatamente o que aquilo significava, Ana Paula Ribeiro se tornou um dos nomes centrais do Hip Hop em São José do Rio Preto — não apenas pela trajetória artística, mas pelo impacto direto na formação cultural de jovens e na consolidação do movimento na cidade. Dançarina, MC, produtora cultural e arte-educadora, ela construiu um caminho que atravessa gerações, territórios e linguagens.
A relação com o Hip Hop começou ainda na juventude, quando se aproximou do breaking. “Eu dançava, mas nem sabia que aquilo era Hip Hop. A gente só sabia que gostava da música e da dança”, relembra. O entendimento mais amplo da cultura veio depois, com a passagem de integrantes do movimento vindos de São Paulo, que apresentaram os elementos que compõem o Hip Hop — dança, rap, graffiti e DJ.
A partir daí, o envolvimento se intensificou. Ana Paula integrou uma equipe feminina de breaking e passou a participar de eventos e batalhas tanto em Rio Preto quanto na capital paulista. Em um período sem internet ou acesso facilitado à informação, o aprendizado exigia persistência. “Não tinha internet, não tinha tutorial. A gente aprendia olhando vídeos, filmes ou o que aparecia na televisão. Era tudo na raça”, conta.
TRANSFORMAÇÃO
Um dos momentos de mudança aconteceu em um evento em São Paulo, durante apresentação do rapper BNegão. Ao subir ao palco para participar do refrão, Ana Paula foi além do esperado. “Quando subi no palco, em vez de fazer o refrão, fiz a levada, que é a estrofe”, explica. A reação do público indicou um novo caminho. “Quando desci, todo mundo começou a me elogiar. Foi ali que percebi que eu sabia cantar e que também conseguia escrever rap”, relembra.
A experiência marcou o início de sua atuação como MC e compositora, ampliando sua presença dentro do movimento.
A trajetória também passa pela base familiar. A mãe, Dona Tina, incentivou desde cedo, ao presenteá-la com um disco de música negra que despertou o interesse pela cultura. A tia, Dona Fina, ajudou a sustentar a rotina da casa enquanto Ana Paula se dedicava ao trabalho voluntário. Hoje, os filhos Lucas e Isabela participam das ações culturais, colaborando na produção de eventos.
DESAFIOS
Mesmo com os avanços, aponta que o machismo ainda é um desafio dentro do próprio movimento. Ainda assim, sua atuação contribuiu para abrir caminhos e consolidar espaços. Ana Paula também foi empossada como a primeira conselheira municipal pelo segmento Cultura Urbana, Arte de Rua e Hip Hop em Rio Preto, participando da construção de políticas públicas para o setor.
(Colaborou Dandara Caroline)
Projetos que deixam legado
Inspirada por iniciativas que conheceu em São Paulo, Ana Paula ajudou a fundar a Casa do Hip-Hop em Rio Preto, ao lado do DJ Basim. O espaço se tornou um dos principais polos de formação cultural da cidade, oferecendo oficinas de breaking, rap, graffiti e DJ para cerca de 160 a 180 jovens por mês. “Fomos para São Paulo aprender como funcionava uma Casa do Hip-Hop e trouxemos esse modelo para Rio Preto”, diz.
O projeto funcionou por mais de uma década, até ser encerrado em 2016, após mudanças na gestão municipal que levaram à desocupação do espaço. Ainda assim, o trabalho seguiu em outros formatos. “A gente continua em formas de oficinas, ações sociais, campeonatos”, afirma. A retomada do projeto segue como objetivo. “Eu acho que é voltar à Casa do Hip-Hop, voltar às oficinas, ter as oficinas da maneira como sempre teve, chegar a mais bairros. Porque o Hip Hop tem um poder de transformação muito grande na vida das pessoas”, destaca.
DUELO DE TITÃS
Entre os projetos criados por Ana Paula está o Duelo de Titãs, campeonato de breaking iniciado em 2006, com um formato que inclui o confronto final com o “Titã”, campeão da edição anterior. O evento ganhou projeção nacional e internacional, com edições realizadas em Portugal, em 2010, e nos Estados Unidos, em 2024, além de versões locais e voltadas ao público infantil. “Até hoje a gente faz o Duelo de Titãs, que é muito importante para a cidade, porque vem gente do Brasil inteiro e até de fora”, afirma.
Ao longo dos anos, Ana Paula também esteve à frente de iniciativas como o Festival Olho de Rua, realizado entre 2008 e 2016, e o Projeto ECO, desenvolvido em parceria com a Secretaria de Educação entre 2014 e 2016. Atuou ainda como produtora de eventos com o DJ KL Jay e, em 2024, foi MC do Campeonato Brasileiro de Breaking, participando de atividades em cidades como Fortaleza, Goiânia e São Paulo. Atualmente, apresenta o podcast Flow Produzindo – Conversas Subversivas.
Após 30 anos de atuação, o trabalho segue guiado por um princípio simples, mas constante. “Eu acredito que o Hip Hop ensina a gente a pensar no coletivo. A gente precisa transformar a comunidade e ajudar quem está chegando agora”, afirma.
Entre palcos, batalhas e projetos sociais, a trajetória de Ana Paula mostra que, no Hip Hop, o tempo não apaga — acumula. E, no caso dela, transforma. (DC)

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