HB aposta no livro físico como pausa e conforto em meio à rotina hospitalar
Entre corredores apressados, consultas, exames e esperas existe um espaço onde o tempo desacelera. No Hospital de Base de Rio Preto, a Biblioteca Prof. Dr. José Paulo Cipullo se firma como um território de silêncio, imaginação e encontro — um lugar onde o cuidado também acontece por meio das palavras impressas.
Mais do que um acervo organizado, a biblioteca representa o gosto pela leitura como hábito cotidiano e ferramenta de acolhimento. Ali, livros não cumprem apenas a função de informar ou entreter: ajudam a atravessar o tempo da espera, aliviam a tensão do ambiente hospitalar e oferecem aos leitores a chance de se deslocar, ainda que por algumas páginas, para fora das preocupações imediatas.
A BIBLIOTECA
O espaço abriga atualmente cerca de duas mil obras, com títulos de literatura nacional e estrangeira, filosofia, história, biografias, psicologia, religião, política e autoajuda. O acervo atende colaboradores, pacientes e acompanhantes, além de dar suporte a ações de leitura realizadas por voluntários e profissionais, incluindo atividades voltadas às crianças atendidas pelo Hospital da Criança e Maternidade.
Colaboradores do Hospital de Base já contam com cadastro ativo no sistema Alexandria e podem retirar livros por até cinco dias. Pacientes e acompanhantes também têm acesso ao empréstimo, mediante um cadastro simples, com prazo de devolução de três dias — uma forma prática de colocar o livro em circulação e fazê-lo chegar a quem mais precisa de companhia durante a permanência no hospital.
Para o diretor-executivo da Funfarme,Horácio Ramalho, o valor da biblioteca está diretamente ligado à força simbólica do livro físico. “É uma grande alegria ver a biblioteca do professor Cipullo reaberta, porque os livros contam a história da humanidade e nos ajudam a pensar o futuro. O livro físico é insubstituível. Queremos que toda a nossa comunidade utilize esse espaço — colaboradores, médicos, enfermeiros — e, principalmente, que os livros voltem a chegar aos pacientes e acompanhantes, proporcionando acesso à leitura durante a permanência no hospital”, afirmou.
A biblioteca leva o nome do cardiologista e professor da Faculdade de Medicina de Rio Preto, José Paulo Cipullo, reconhecido pelo incentivo permanente à cultura e ao conhecimento. Desde sua criação, em 2012, o espaço se construiu com o apoio da comunidade e de colaboradores, que contribuíram com doações de livros, ajudando a formar um acervo diverso e vivo.
Leitor voraz desde sempre, o médico homenageado vê na leitura um exercício contínuo de formação humana. “A biblioteca é algo muito importante para mim. Há uma frase muito bonita de Castro Alves que diz: ‘Bendito quem semeia livros à mão cheia e faz o povo pensar. O livro, caindo na alma, é o germe que faz a palma e a gota que faz o mar’. Só isso já diz tudo. Eu leio até hoje, por toda a minha vida, leio de tudo: filosofia, literatura, o que cair na minha mão. E isso é muito importante, porque o livro traz muito conhecimento para a gente. Além disso, o livro proporciona algo que não encontramos na televisão ou no celular: a reflexão”, relatou.
A presença da biblioteca no hospital também dialoga com políticas culturais e de humanização. Para o secretário municipal de Cultura, Robson Vicente, o acesso aos livros ajuda a transformar a experiência de quem passa pelo ambiente hospitalar. “É uma iniciativa maravilhosa, porque vem somar com aqueles que, como costumo dizer, estão no hospital sem querer estar ali. Muitas vezes, essas pessoas ficam ansiosas com o celular na mão. Então, uma ação como essa, de oferecer uma biblioteca e incentivar a leitura, mostra o quanto ela é fundamental e importante. Eu super apoio e a Secretaria de Cultura está à disposição”, declarou.
RECONHECIMENTO
A iniciativa recebeu o reconhecimento de representantes do meio cultural da cidade. Para João Paulo Vani, fundador do Grupo HN e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura, a leitura funciona como uma pausa necessária. “Essa humanização contribui não só para os pacientes, mas também para acompanhantes e colaboradores, porque, às vezes, nos 15 minutos de café, quando a pessoa senta e lê alguma coisa, ela consegue aliviar um pouco o peso natural do ambiente hospitalar”, afirmou.
Na mesma linha, o historiador e jornalista Lelé Arantes, fundador da THS Editora, destacou o papel simbólico das bibliotecas. “Essa iniciativa é muito acertada e traz para toda a comunidade interna a possibilidade de avançar no caminho da humanização, o que é fundamental. A biblioteca é sempre bem-vinda, até porque nela reunimos o pensamento diversificado de milhares de pessoas. A cada página de um livro, nos deparamos com uma realidade diferente daquela que vivenciamos no dia a dia”, complementou.
Uma leitora fiel

Cleide Fátima Dos Santos é uma das usuárias mais assíduas da biblioteca - Victória Oliveira/Divulgação
Auxiliar da lavanderia da Funfarme há 33 anos, Cleide Fátima Dos Santos é uma das usuárias mais antigas e entusiasmadas da Biblioteca Prof. Dr. José Paulo Cipullo. Leitora desde a infância, ela encontrou nos livros uma presença constante, capaz de atravessar fases da vida e se adaptar até mesmo à rotina intensa do ambiente hospitalar.
“Quando a biblioteca abriu as portas pela primeira vez, eu batia ponto pelo menos duas vezes na semana lá. No mês, sempre pegava em torno de 3 ou 4 livros para ir lendo. Quando criança, aprendi a ler por meio de gibis e hoje continuo com esse hábito, mas gosto de ler calhamaços”, conta.
Na época da primeira abertura do espaço, a Funfarme mantinha uma premiação para os funcionários que mais realizavam empréstimos, e Cleide esteve frequentemente entre os destaques. Conhecida pelos corredores do complexo, ela costuma ser procurada por colegas em busca de boas indicações de leitura.
“Ler é cultura! Ler nos ajuda a entender melhor o mundo, a ter conversas melhores e a expandir o vocabulário. Considero um privilégio ter uma biblioteca aqui dentro. Não precisamos sair do complexo, os livros são gratuitos e é muito bom ter a biblioteca funcionando novamente. Leio de tudo e repassei esse hábito para minhas filhas e sobrinhas. Ler é educação”, finaliza. (SB)

Redação 



