Movimento SerTão reúne artistas em Rio Preto para discutir a relação com o tempo

Movimento SerTão reúne artistas em Rio Preto para discutir a relação com o tempo
Beth Sales, Terezinha Bilia, Patrícia Buzzini, Josiani Sabino, Aícro Jr, Araguaí Garcia (na frente), Luciane D’Alessandro, Wesley Estácio, Marcos Anto - Divulgação

Há um tipo de tempo que não aparece no relógio. É feito das escolhas que não foram tomadas, dos caminhos que ficaram para trás, das conversas adiadas e das experiências que, por alguma razão, nunca chegaram a acontecer. É sobre esse território entre o vivido e o não vivido que se debruça a exposição “Para onde escorrem as horas que não vivemos?”, do Movimento SerTão.

Com curadoria de Oscar D’Ambrosio, expografia de Josiani Sabino e coordenação de Luciane D’Alessandro e Patrícia Reis Buzzini, a mostra, que reúne 30 artistas, acontece a partir da próxima quinta-feira, 1º de outubro, até o dia 12 de outubro, no Riopreto Shopping.

A exposição conta com o apoio do Diário da Região, da Revista Bem-Estar, do Riopreto Shopping e da Pagu Alimentos.

PROPOSTA

A exposição propõe que o visitante olhe para aquilo que costuma ficar fora da contagem das horas: a memória, a finitude e as possibilidades que se perderam no caminho.

Na sua obra “O que o Tempo Guarda”, Patrícia Buzzini trabalha justamente com a ideia das escolhas e de suas consequências.

“Participar desta exposição é um convite a refletir sobre a passagem do tempo — não apenas o que vivemos, mas também as possibilidades que deixamos pelo caminho. Em ‘O que o Tempo Guarda’, trabalho com a imagem de janelas que se abrem e se fecham; parto da ideia de que toda escolha é também uma renúncia. Inspirada pelo poema ‘The Road Not Taken’, de Robert Frost, a obra fala desses caminhos possíveis que não percorremos e que, de algum modo, permanecem em nós como memória do não vivido. É muito especial integrar uma mostra que transforma essa reflexão sobre tempo, escolhas e ausência em experiência coletiva por meio da arte”, afirma.

Já em sua obra “Olhos Negros”, Luciane D’Alessandro quer passar o conceito de que o tempo não passa, mas nos atravessa. “Entre círculos, engrenagens e memórias, a obra revela a ilusão de controlar aquilo que é inevitável. A Medusa simboliza resistência e transformação; o pássaro, aquilo que desejamos reter, mas que nasceu para partir. Os olhos negros guardam o intocável: aquilo que o tempo não restitui, mas a memória insiste em preservar”, afirma.

No texto curatorial, Oscar D’Ambrosio amplia essa discussão ao observar como o tempo pode deixar de ser percebido como experiência para assumir uma dimensão quase abstrata, associada à produtividade e ao desempenho. “As horas não vividas acumulam-se no silêncio das escolhas que deixamos de fazer ontem”, escreve o curador.

DIFERENTES OLHARES

Participam da exposição Aícro Júnior, Antonio Cury, Araguaí Garcia, Ary Salles, Beth Sales, Carlos Bachi, Cibeli Felippe, Daniel Firmino, Eliara Bevilaqua, Eloisa Mattos, Elton Marangoni, Guilherme Bethlem, Jair Lemos, Jaasiel Valzacchi, Jocelino Soares, Josiani Sabino, Luciane D’Alessandro, Luis Antônio Cossi, Marcos Machado, Marcos Antolini, Maria Helena Curti, Patrícia Buzzini, Regina Garbellini, Rodrigo Silva, Telma Parizi, Terezinha Bilia, Thomaz Vitta Neto, Valdecir Gerotto, Valdenir do Bonfim e Wesley Estácio.

A diversidade de técnicas, linguagens e trajetórias permite que o tema seja abordado a partir de diferentes experiências. A proposta do Movimento SerTão é justamente colocar esses olhares em diálogo, aproximando a produção artística contemporânea da memória e das questões que atravessam a vida cotidiana.

Segundo Luciane D’Alessandro, reunir artistas tão diversos revelou que, embora o tempo seja uma experiência comum, cada um o sente e o traduz de modo único. “Suas obras expõem aquilo que nele permanece como marca, memória e afeto. No fundo, tocamos aquilo que não se deixa mover pelo relógio: o sentimento que, mesmo diante da passagem do tempo, permanece. E é nessa permanência que, talvez, esteja a nossa forma de, por um instante, vencer o tempo”, afirma.

“O tempo nos atravessa por inteiro. Ele atravessa a vida, o universo e até o vácuo; nada parece escapar à sua passagem. No entanto, existe algo que parece resistir a esse movimento: o sentimento profundo. O amor, a dor, a saudade, as perdas e até as conexões que nos transformam podem permanecer dentro de nós, como se ficassem suspensos no tempo, mesmo quando tudo ao redor continua a passar.”

A exposição também busca aproximar o público dos processos de criação. Por meio de QR Codes disponíveis junto às obras, os visitantes poderão assistir a vídeos, produzidos por Wesley Estácio, com depoimentos dos próprios artistas, nos quais eles apresentam ideias, referências, histórias e aspectos do processo de construção dos trabalhos.

MEMÓRIA

Além da reflexão sobre o tempo, a mostra estabelece uma relação direta com a memória cultural de Rio Preto ao homenagear o arquiteto e artista plástico José Villanova, cuja trajetória marcou a produção artística, arquitetônica e cultural da cidade.

A homenagem será realizada durante a abertura da exposição, em 1º de outubro, às 20h, em uma programação que contará com depoimentos de Luciane D'Alessandro e Maria Helena Curti.

PROGRAMAÇÃO

O Movimento SerTão preparou atividades que ampliam a experiência do público e colocam diferentes linguagens artísticas em contato.

No dia 9 de outubro, às 19h, Jocelino Soares apresenta “Causos e poesias caipiras”, levando para o espaço expositivo elementos da oralidade, da memória e da cultura popular.

No dia seguinte, 10 de outubro, às 19h, Marcos Antolini conduz a atividade “Eco Arte Sustentável”, com oficina de reciclagem e bate-papo sobre arte, reaproveitamento e consciência ambiental.

Já em 11 de outubro, às 17h, Aicro Jr. realiza uma sessão de pintura ao vivo. No mesmo horário, Luciane D’Alessandro, Rodrigo Silva e Terezinha Bilia participam da atividade “Pintando com os artistas”, proposta de aproximação entre público e processo de criação.