Arquitetos defendem reforma do Centro Cultural, patrimônio histórico de Rio Preto

Arquitetos defendem reforma do Centro Cultural, patrimônio histórico de Rio Preto
A arquiteta e urbanista Ana Letícia Perosa Ravagnani fez um levantamento estrutural de todas as necessidades do prédio recentemente e, segundo ela, apesar dele permanecer em uso, as condições atuais revelam sinais claros de desgaste e descaracterização de elementos originais - Guilherme Baffi/Arquivo

Localizado em uma área central de Rio Preto, o prédio que abriga o Centro Cultural “Prof. Daud Jorge Simão” é considerado um dos marcos da arquitetura moderna da cidade e um dos principais espaços de preservação da memória local. No entanto, passadas décadas desde sua inauguração, especialistas apontam que a edificação apresenta sinais de desgaste estrutural e carece de intervenções técnicas que garantam sua preservação e segurança.

O edifício reúne importantes equipamentos culturais, como a Biblioteca Pública Municipal “Dr. Fernando Costa” e o Museu Histórico e Pedagógico “Dom João VI”, além de espaços expositivos e acervos que guardam parte da história da cidade. Para pesquisadores da área de patrimônio, a restauração do prédio é essencial para manter viva a memória cultural rio-pretense e valorizar um espaço simbólico da paisagem urbana.

LEVANTAMENTO

A arquiteta e urbanista Ana Letícia Perosa Ravagnani, professora universitária e especialista em teoria e projeto de restauro, afirma que o edifício é um exemplar importante da arquitetura moderna na região. “O edifício que hoje abriga o Centro Cultural é um exemplar icônico da arquitetura moderna na região, com sua volumetria ousada e uso do concreto armado. De concepção brutalista (do francês béton brut, ou concreto bruto), projetado pelo arquiteto José Gonçalves Toscano sob a influência da Escola Paulista liderada pelo arquiteto Vilanova Artigas, expressa os ideais éticos e estéticos deste movimento.”

Segundo ela, “o princípio fundamental do movimento é não esconder a natureza da construção, usar o concreto aparente expondo suas texturas.” Além disso, a estrutura que sustenta o edifício é também sua arquitetura. Projetado como elemento de destaque na antiga Praça Cívica, sua monumentalidade e contraste com a paisagem o transformaram em marco urbano e cultural.”

A professora, que é mestre pela USP, fez um levantamento estrutural de todas as necessidades do prédio recentemente e, segundo ela, apesar dele permanecer em uso, as condições atuais revelam sinais claros de desgaste e descaracterização de elementos originais. “É necessário compreender a história e as técnicas retrospectivas para fundamentar e realizar um projeto de futuro. Como o edifício está em uso e abriga diversas funções, recebe uma manutenção mínima. Porém, a estrutura do edifício está de certa forma descaracterizada, recebeu camadas de tinta e não a manutenção exigida pelo material original, o concreto.”

Como todo edifício em concreto aparente, sofre com o desgaste natural e apresenta algumas patologias, como infiltrações e manchas no concreto que exigem tratamentos especializados para não comprometer a armadura interna. “Além disso, as esquadrias em aço, elemento predominante na vedação de toda a fachada, apresentam sinais de oxidação e deterioração. O piso encontra-se com trincas e desgaste natural, requer também reparos importantes.”

Após a construção do Terminal Urbano Municipal, o edifício perdeu seu protagonismo na paisagem, segundo a especialista. “A acessibilidade urbana ficou comprometida com a complexidade do sistema viário do entorno. A questão da inserção urbana e o uso da edificação precisam ser pensados e equacionados, tendo em vista a necessidade de criar vitalidade para uma área em vias de abandono”, afirma Ana Letícia.

INTERVENÇÕES

Entre as medidas consideradas mais urgentes para preservar o edifício, Ana Letícia aponta a necessidade de intervenções estruturais e adequações às normas técnicas atuais. “Prioritariamente solucionar as patologias da estrutura em concreto e demais elementos. Equacionar a acessibilidade ao edifício, criar banheiros para pessoas com deficiência, instalar mais um elevador, já que tem previsto em projeto, mas conta hoje com apenas um em funcionamento. Adequar o edifício a todas as normas técnicas atuais correspondentes à sua natureza e uso.”

Segundo a especialista, é importante reorganizar o uso. “Hoje o edifício encontra-se sobrecarregado de funções o que levou à descaracterização de seu espaço interno, com diferentes divisórias e usos inadequados. E também implementar normas de segurança contra incêndio.”

Para a arquiteta, preservar o edifício vai além da manutenção física e envolve também questões culturais e ambientais. “Conservar as pré-existências é um ato de preservação da memória e uma atitude alinhada com as discussões contemporâneas da arquitetura e do urbanismo. A conservação deste patrimônio deixa de ser apenas uma questão estética e passa a ser uma estratégia de resistência cultural e responsabilidade ambiental.”

Do ponto de vista técnico, o edifício mais sustentável é aquele que já está construído, pois o concreto armado possui uma quantidade imensa de energia e emissões de CO2 já ‘gastas’ em sua execução original. “Demolir uma estrutura como essa geraria um volume de resíduos de difícil descarte. Seu reuso e adaptação podem criar condições de requalificação do edifício e de todo seu entorno urbano.”

Para Ana Letícia, a preservação do Centro Cultural como patrimônio da cidade é uma forma de manter viva a história e o diálogo entre as diferentes gerações. “Ele representa uma época, como referência espacial e simbólica, é registro material de um período da história do interior paulista. A experiência física de estar neste edifício é também uma forma de educação patrimonial que propõe ao usuário um sentimento de pertencimento e memória viva.”

A Prefeitura de Rio Preto foi procurada, mas não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Proteção legal e valor cultural
O valor histórico do edifício também é reconhecido em instrumentos de planejamento urbano. Segundo a arquiteta e urbanista Maria Heloísa Maltarolo, que coordena o Escritório Descentralizado do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU/SP) na regional Rio Preto, o espaço possui proteção prevista no Plano Diretor do município.

Pesquisadora da UFSCar pelo Programa de Pós-graduação em Engenharia Urbana (2023 a 2026), com a pesquisa de Mestrado: “Análise do Patrimônio Cultural da Região Metropolitana de São José do Rio Preto”, Maria Heloísa afirma que o Centro Cultural “Prof. Jorge Simão” foi classificado como Área de Especial Interesse Histórico, Cultural e Turístico (AEIHCT) pelo Plano Diretor do município de Rio Preto, revisado em 2021, ou seja, é um espaço de preservação da memória e identidade local por meio de seu valor arquitetônico e simbólico.

Segundo ela, o enquadramento determina que qualquer intervenção a ser realizada no edifício deve ser submetida a avaliação prévia do Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Cultural e Turístico (Comdephact) e do Conselho do Plano Diretor do Município. “Com isso, fica estabelecido por lei um nível de proteção e valorização desse bem cultural, conduzindo um desenvolvimento urbano municipal mais sensível à história e à cultura de Rio Preto.”

Maria Heloísa afirma que a construção do Centro Cultural “Prof. Jorge Simão” possui relevância histórica e cultural para Rio Preto, pois foi um marco da modernização da cidade e da institucionalização de políticas públicas culturais nos anos de 1980, quando foi inaugurado. “Neste período a administração municipal investiu pesadamente em equipamentos culturais e na requalificação dos espaços públicos no centro urbano.”

RESISTÊNCIA

Ela lembra ainda que o edifício integrava um complexo cultural implantado na antiga Praça Cívica. “Com projeto arquitetônico assinado pelo engenheiro civil José Gonçalves Toscano, o edifício integrava o complexo cultural implantado na Praça Cívica com equipamentos importantes para a difusão cultural na cidade. Infelizmente parte deste complexo foi destruído para a implantação do novo Terminal Urbano em 2015, mas o Centro Cultural Prof. Jorge Simão permanece de pé como símbolo de resistência e preservação da memória do povo rio-pretense.”

Além do valor arquitetônico, o espaço reúne instituições responsáveis pela preservação de acervos culturais e documentais da cidade, reforçando sua importância social. “Como a sede da Secretaria Municipal de Cultura; o Comdephact; e acervos documentais e culturais como do Museu Histórico e Pedagógico “Dom João VI”; a Pinacoteca Municipal; a Sala Naif; a Sala Cascatinha e Inhana; a sala Claudio Malagoli; e também a Biblioteca Pública Municipal “Dr. Fernando Costa” e a Rádio Educativa FM Rio Preto.”(FM)

Memória urbana
Para Maria Heloísa, restaurar equipamentos culturais como bibliotecas e museus é fundamental para fortalecer a identidade de uma cidade. “O restauro de equipamentos culturais, como bibliotecas, museus e centros culturais, desempenha um papel fundamental na valorização da memória urbana e no fortalecimento da identidade cultural da população. Esses edifícios não são apenas estruturas físicas destinadas a atividades culturais, mas também suportes materiais para o patrimônio imaterial e a memória coletiva, nos quais se inscrevem práticas sociais, experiências culturais e processos históricos relacionados à formação da cidade.”

REFERÊNCIAS

Maria Heloísa explica que, quando restaurados de forma adequada, esses espaços permitem preservar referências arquitetônicas e simbólicas importantes para a paisagem urbana, preservando a história do território. “A manutenção dessas edificações no tecido urbano possibilita que diferentes gerações reconheçam nelas os marcos da trajetória cultural e institucional da cidade, reforçando vínculos de pertencimento e reconhecimento identitário.”

Segundo ela, iniciativas de restauro também podem contribuir para a revitalização de áreas urbanas e ampliar o acesso da população às atividades culturais. “Além disso, o restauro de equipamentos culturais frequentemente promove a requalificação de áreas urbanas, estimulando a apropriação social dos espaços públicos e ampliando o acesso da população a atividades culturais, educativas e patrimoniais. Nesse sentido, a recuperação de bibliotecas, museus e centros culturais pode atuar como um catalisador de dinamização urbana, incentivando a circulação de pessoas, a realização de eventos e o fortalecimento da vida cultural e econômica da comunidade local.” (FM)

Espaço de convivência
O jornalista e historiador Lelé Arantes afirma que o prédio também representa uma fase importante da história cultural da cidade e deveria voltar a ocupar papel central na vida cultural rio-pretense. “O edifício faz parte de um projeto maior que nunca saiu do papel, que é o projeto da Praça Cívica. Ele teria esse prédio que foi projetado pelo arquiteto José Gonçalves Toscano, que foi um grande arquiteto aqui em São Isidro e Rio Preto. Tem várias obras dele, como a sede do Automóvel Clube e do Harmonia Tênis Clube, que são obras dele.”

Segundo ele, durante muitos anos o espaço concentrou diferentes instituições culturais da cidade. “E esse prédio, até 1996, abrigou uma série de instituições da cidade, como, por exemplo, a Arba. A Arba era a Associação Rio-Pretense de Belas Artes. Tinha lá dentro os museus, tinha o Dom João VI, tinha o Museu do Silva, tinha a Pinacoteca, e tinha a biblioteca, que ocupava a parte de baixo. Aquela parte inteira, embaixo, era a biblioteca.”

Arantes também lembra que o centro cultural era um espaço aberto à população inclusive aos finais de semana. “E o interessante é que, até 1996, a biblioteca e os museus, ou melhor, o Centro Cultural ficava aberto de sábado e domingo. Então, a pessoa queria sair de casa no domingo e conhecer o museu, os museus de Rio Preto, ela ia lá na biblioteca, lá no Centro Cultural, e ali ela podia conhecer os museus da cidade. E os leitores que, na época, frequentavam a biblioteca podiam ir lá de domingo, fazer a troca, pegar livros novos.”

PERDA CULTURAL

Na avaliação do historiador, a falta de valorização do espaço representa uma perda cultural para a cidade. “Uma cidade tão rica como o Rio Preto se torna uma cidade culturalmente muito pobre. Então, acredito que o governo municipal precisa dar o valor histórico que o Centro Cultural necessita e precisa fazer com que ele volte a desempenhar o seu papel, que é o papel de unificar ou de convergência dos festejos e da cultura de Rio Preto.”

Ele também defende que o prédio possa receber novos usos culturais. “Acredito que precisávamos ter ali dentro do Centro Cultural um miniteatro, um teatro de bolso, por exemplo, para que não ficasse apenas na dependência da Casa de Cultura e também dos teatros grandes de Rio Preto. Então, muita coisa poderia ser feita ali como espaço não só cultural, mas também um espaço histórico”, afirma Lelé Arantes. (FM)