Clubes da região de Rio Preto assinam nota da FPF contra proibição de bets

Clubes da região de Rio Preto assinam nota da FPF contra proibição de bets
Clubes da região têm casas de apostas como patrocinadores principais - Divulgação

Sete clubes da região de Rio Preto — Mirassol, Novorizontino, América, Rio Preto, Tanabi, Catanduva e Votuporanguense — aderiram ao manifesto divulgado pela Federação Paulista de Futebol (FPF) contra mudanças consideradas abruptas na regulamentação do mercado de apostas no Brasil.

O documento, intitulado “O fim do futebol brasileiro”, afirma que uma redução dos recursos provenientes das bets poderia comprometer a estrutura financeira das equipes e atingir principalmente clubes de menor porte e do interior. Segundo a própria FPF, uma alteração abrupta no mercado de bets poderia provocar forte impacto financeiro nos clubes e até levar algumas agremiações à insolvência.

Neste ano, apenas o Mirassol e o América não contam, ou contaram, com patrocínio de casas de apostas na camisa. No Grêmio Novorizontino, que disputa a Série B do Campeonato Brasileiro, o patrocinador master, posicionado na região frontal, na altura da barriga, é o site Pagol.bet.

Já no caso de Votuporanguense (Série A2), Rio Preto (A3), Catanduva (A3) e Tanabi (A4), que disputaram as divisões inferiores do Campeonato Paulista, todos foram patrocinados pela Rivalo, casa de apostas que fechou um contrato direto com a Federação Paulista de Futebol para patrocinar todos os clubes destas divisões e as competições na totalidade.

A manifestação ocorre enquanto o governo federal discute novas medidas para restringir o mercado de apostas e jogos on-line. A discussão ganhou força após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defender uma ação mais rigorosa contra as bets. A proposta em análise pelo governo, porém, tem como principal alvo os jogos de cassino on-line, e não prevê, até o momento, a proibição das apostas esportivas.

O posicionamento ocorre em meio à discussão do governo federal sobre novas restrições às apostas e aos jogos on-line. O governo prepara uma Medida Provisória (MP) que pode retirar os jogos virtuais da categoria de apostas de quota fixa. A medida, na versão em análise, não proibiria as apostas esportivas, mas atingiria diretamente os cassinos on-line, que representam parcela relevante do faturamento das empresas do setor.

A possibilidade de uma intervenção mais ampla ganhou força nas últimas semanas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, no início de setembro, que o governo precisava tomar uma "decisão drástica" sobre as bets e que pretendia ouvir diferentes setores antes de definir os próximos passos.

A preocupação do futebol está relacionada ao peso que as empresas de apostas passaram a ter nas receitas dos clubes. Estima-se que as bets paguem mais de R$ 1 bilhão por ano em patrocínios apenas aos clubes da Série A.

O setor também passou a ocupar espaços relevantes em camisas, placas de publicidade ao lado do gramado, transmissões e outras propriedades comerciais.

A federação cita ainda estruturas que poderiam ser afetadas por uma queda abrupta das receitas, como centros de treinamento, departamentos administrativos, projetos sociais, futebol feminino e categorias de base.

“O investimento das empresas de apostas autorizadas tornou-se uma das principais fontes de receita do esporte”, afirma a FPF no documento. A entidade argumenta que, especialmente para clubes do interior, não haveria hoje outro setor econômico capaz de substituir imediatamente esse investimento.

MERCADO REGULADO

A FPF também defende a manutenção do modelo criado pelo governo federal. As apostas esportivas de quota fixa foram legalizadas em 2018, enquanto os jogos on-line foram incluídos no marco regulatório pela Lei 14.790, de 2023. Desde janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, podem operar nacionalmente.

O governo criou mecanismos de monitoramento e fiscalização do setor, incluindo o Sistema de Gestão de Apostas (SIGAP). Em setembro deste ano, inclusive, a SPA publicou uma nova portaria para ampliar os instrumentos de combate ao mercado ilegal de apostas.

É justamente esse modelo que a FPF diz querer preservar. Para a entidade, retirar as empresas autorizadas do mercado não eliminaria necessariamente o hábito de apostar, mas poderia ampliar a atuação de plataformas clandestinas.

“O que o futebol entende que deve ser feito, com o máximo rigor, é combater a ilegalidade, fortalecer a fiscalização e aperfeiçoar os mecanismos de proteção, sem colocar em risco um mercado regulamentado pelo próprio Estado"”, afirma o comunicado.

O argumento está relacionado também à preocupação com contratos atualmente em vigor. A federação sustenta que clubes fizeram planejamentos financeiros e firmaram acordos comerciais considerando o marco regulatório estabelecido pelo próprio Estado.

IMPACTO SOCIAL

Do outro lado da discussão, o governo federal destaca os efeitos das apostas sobre a renda das famílias e os problemas associados ao jogo excessivo. A preocupação com o endividamento e com a população mais vulnerável é um dos argumentos apresentados por integrantes do governo para justificar mudanças no setor.

A regulamentação já prevê mecanismos de proteção ao apostador. Entre eles está a possibilidade de autoexclusão centralizada, pela qual o cidadão pode bloquear voluntariamente o acesso a todas as plataformas autorizadas por determinado período ou indeterminadamente.

A discussão, portanto, coloca em lados diferentes duas preocupações: de um lado, o governo busca reduzir os efeitos sociais associados às apostas; de outro, clubes e entidades esportivas defendem que o mercado legal seja preservado e fiscalizado, diante da dependência financeira criada nos últimos anos.

MOBILIZAÇÃO DOS CLUBES

A manifestação da FPF faz parte de uma mobilização mais ampla do futebol brasileiro. Além da federação paulista, Palmeiras, Santos e São Paulo divulgaram o documento. No Rio de Janeiro, Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco também aderiram a uma manifestação semelhante, articulada pela Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro. O Cruzeiro também se posicionou.

O comunicado paulista termina com três frases que resumem a posição das entidades: “O torcedor não pode pagar essa conta”, “Se acabar com o mercado regulado, as apostas não acabam” e “O futebol é quem acaba”.

Apesar do tom do manifesto, a proposta atualmente em discussão no governo concentra-se nos jogos de cassino online e não prevê a proibição das apostas esportivas. A questão central para o futebol é que uma restrição aos produtos mais rentáveis das operadoras pode reduzir a capacidade financeira dessas empresas e, consequentemente, o volume de recursos destinado ao esporte.