Conexão rio-pretense ‘lava’ R$ 2 bilhões do jogo do bicho carioca
A Polícia Federal prendeu, na quarta-feira, 29, um empresário de Rio Preto do ramo da construção civil, o pai dele e três funcionários, suspeitos de participação em um esquema de lavagem de dinheiro que teria movimentado cerca de R$ 2 bilhões, ligado ao jogo do bicho no Rio de Janeiro. Na capital fluminense, outras quatro pessoas foram presas, além de um morador de Campo Grande (MS). A ação ocorreu no âmbito de uma operação conjunta com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Rio Preto. Os nomes das pessoas presas não foram divulgados.
Ao mesmo tempo, foram cumpridos 11 mandados de busca e apreensão em residências e sedes de empresas ligadas aos investigados. As investigações apontam que o grupo atuava de forma estruturada e articulada há mais de cinco anos, utilizando empresas de fachada para ocultar e dissimular valores ilícitos, principalmente oriundos da exploração de jogos de azar no Estado do Rio de Janeiro. Parte relevante desse esquema tinha base em Rio Preto, onde empresas eram usadas para conferir aparência de legalidade ao dinheiro movimentado.
De acordo com o delegado federal Alexandre Gonçalves, coordenador da Polícia Federal em Rio Preto, a investigação identificou um fluxo contínuo de envio de recursos entre diferentes estados. “Foi identificada uma organização criminosa que constituiu empresas de fachada e utilizava essas estruturas para lavar dinheiro oriundo de diversas práticas criminosas”, afirmou.
Segundo o delegado, o esquema envolvia a criação de empresas fictícias, com a utilização de pessoas como “laranjas” ou até mesmo com o uso indevido de CPFs, além da atuação de operadores financeiros. A estrutura servia para receber valores ilícitos de bicheiros e também de milícias, pulverizá-los em diversas contas bancárias e, posteriormente, reinseri-los no sistema financeiro como se fossem recursos de origem lícita. Um dos braços da organização atuava no setor da construção civil em Rio Preto, o que facilitava a movimentação de grandes quantias sem levantar suspeitas imediatas.
Gonçalves destacou que o modelo utilizado é considerado clássico em esquemas de lavagem de dinheiro. “É um sistema baseado no uso de empresas de fachada para ocultar a origem dos recursos. Esses valores entram no sistema como se fossem provenientes de atividades legais”, disse.
As apurações indicam que o volume movimentado pelo grupo ultrapassa R$ 2 bilhões ao longo do período investigado. Com base nas provas reunidas, a Justiça Estadual autorizou o bloqueio de bens dos investigados até o limite de R$ 2,09 bilhões.
Segundo o promotor de Justiça Tiago Dutra Fonseca, do Gaeco, o empresário de Rio Preto teria sido o responsável por oferecer a estrutura de lavagem de dinheiro a bicheiros do Rio de Janeiro. Ainda de acordo com ele, o mesmo esquema também teria sido utilizado por milícias.
As investigações apontam que o grupo criou empresas de fachada para operar centenas de maquininhas de cartão e sistemas de pagamento via Pix, utilizados em pontos de jogo do bicho, videobingo e também em áreas dominadas por milícias no Rio de Janeiro.
“O que se constatou foi a criação de uma estrutura empresarial e financeira a partir de Rio Preto, oferecida como serviço para viabilizar a circulação de valores multimilionários e dificultar a identificação da origem desses recursos”, afirmou o promotor.
Segundo o Gaeco, mais de R$ 100 milhões foram sacados em espécie, principalmente para o pagamento de prêmios. Outra parte do dinheiro era direcionada a empresas, inclusive do setor da construção civil, para dar aparência de legalidade aos valores.
As investigações indicam que o esquema pode ter operado por mais de dez anos, com maior intensidade a partir de 2019. O caso segue em apuração e não está descartada a possibilidade de novos desdobramentos, incluindo outras prisões e o aprofundamento de eventuais conexões com milícias e agentes públicos.
Entre os bens atingidos estão imóveis, veículos de alto valor e ativos financeiros identificados ao longo da investigação. A medida tem como objetivo impedir a dissipação do patrimônio e garantir eventual ressarcimento aos cofres públicos.
Os investigados poderão responder, conforme o grau de participação, pelos crimes de lavagem de dinheiro e organização criminosa, cujas penas podem ultrapassar 10 anos de prisão.
A Polícia Federal informou que as investigações continuam, com o objetivo de mapear toda a estrutura da organização criminosa, identificar outros beneficiários do esquema e esclarecer a origem completa dos recursos ilícitos.
Os advogados das pessoas presas informaram que só irão se manifestar após terem acesso aos autos do inquérito para entender quais são as suspeitas que pesam contra seus clientes.

Operação da PF em Rio Preto, onde funcionava parte considerada relevante do esquema: imóveis, veículos de alto valor e ativos financeiros foram identi

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