Gustavo Lepe expõe na Casa de Portinari pela sétima vez

Gustavo Lepe expõe na Casa de Portinari pela sétima vez
Gustavo Lepe segura as duas obras que serão apresentadas no Museu Casa de Portinari, em Brodowski - Divulgação

A relação de Gustavo Lepe com a arte de Candido Portinari começou antes mesmo de sua primeira participação na Semana Portinari. Fã do pintor, o artista plástico de Rio Preto conheceu o Museu Casa de Portinari, em Brodowski (SP), de maneira despretensiosa, durante uma viagem para a região. O que seria apenas uma parada para conhecer o espaço acabou dando início a uma trajetória que chega agora à sétima participação consecutiva no evento.

A 53ª edição da Semana Portinari será realizada de 14 a 23 de agosto, em Brodowski, cidade natal de Candido Portinari. Promovida pelo Museu Casa de Portinari em parceria com a Prefeitura de Brodowski, a programação celebra a vida, a obra e o legado do artista.

Mesmo depois de sete participações, Lepe afirma que o frio na barriga continua presente. “Cada apresentação é como se fosse a primeira. Se deixar de ser assim, você perde a essência de ser artista”, afirma.

A primeira participação surgiu de forma inesperada. Durante uma viagem à cidade de Franca, Lepe passou pelo museu e contou à então namorada sobre a admiração que tinha por Portinari e o desejo antigo de conhecer o espaço. Ao entrar no local, foi identificado como artista e recebeu o convite para participar da programação. A experiência o marcou. “Eu entrei no carro, fui até Ribeirão. No caminho fui chorando, de emoção”, conta. Desde então, construiu uma relação próxima com o museu e com a equipe responsável pelo espaço.

Obras

Para a edição deste ano, Lepe participa com duas obras, “A Prole e A Fuga” e “Prole”, que têm como tema a saída de pessoas da Europa durante os conflitos do período entre guerras em direção ao chamado Novo Mundo, especialmente ao Brasil. As obras também partem das experiências vividas por familiares do artista durante esse período histórico.

A inspiração surgiu depois de uma conversa com Juliana, esposa do artista, que o questionou sobre o fato de ele abordar frequentemente sua origem judaica e pouco falar sobre sua raiz cristã, ligada à família materna. A provocação levou Lepe a olhar para outras partes de sua história familiar. Neto de italianos por parte de mãe e com ascendência também ligada a outros países europeus, ele passou a refletir sobre os familiares que deixaram a Europa em busca de segurança e de uma nova vida.

Mais do que representar uma viagem, as obras procuram traduzir a angústia de quem precisava abandonar sua casa, suas referências e parte da própria história sem saber o que encontraria pela frente. Para Lepe, a fuga também envolve a esperança de recomeçar em outro lugar. “Eu gostaria que a população, quem visita minhas obras, entendesse tamanha angústia das pessoas, a ansiedade de escapar de um momento como aquele”, afirma.

Nesse contexto, as figuras femininas ganham protagonismo nas obras. Lepe representa mães e crianças como símbolos de proteção, acolhimento e continuidade. Para o artista, a figura materna é responsável por proteger os filhos mesmo diante da insegurança e da necessidade de deixar tudo para trás. “Mãe é o ser mais próximo da criação”, afirma. “A mulher tem o poder divino de acolher.”

A escolha das figuras femininas também está relacionada, segundo Lepe, à ideia de continuidade das gerações. Em meio à fuga e às dificuldades enfrentadas pelas famílias, são essas figuras que representam o cuidado e a possibilidade de um novo começo.

As obras também carregam uma homenagem ao Brasil. Segundo o artista, as obras recebeu uma borda em verde e amarelo para representar o país que acolheu seus familiares durante o processo de imigração. A escolha das cores transforma a experiência particular de sua família em uma reflexão sobre a trajetória de tantos imigrantes que encontraram no Brasil um novo lugar para viver. A temática estabelece ainda uma aproximação com a própria produção de Portinari, que abordou em diferentes momentos de sua trajetória questões relacionadas à guerra, à pobreza e ao sofrimento humano.

O processo de criação das obras também foi marcado por uma intensa produção. Segundo o artista, no mesmo dia em que realizou os trabalhos que estarão na Semana Portinari, produziu cerca de 120 desenhos e escreveu dois contos. Um deles deu origem a “Um Dia no Verão”, próximo livro de Lepe e sequência de “Um Dia no Inverno”, que aborda a fuga de seu avô e de outros familiares durante o período da Segunda Guerra Mundial. “Este dia de confecção dessas obras foi mágico!”, afirma o artista.

Apoio

Apesar da satisfação com a sétima participação, Lepe afirma que gostaria de contar com maior apoio para representar Rio Preto em eventos fora da cidade. O artista relata que, em anos anteriores, custeou as viagens com recursos próprios, mas agora busca patrocínio para conseguir participar presencialmente da programação.

Segundo ele, a participação em um evento como a Semana Portinari também representa uma forma de levar o nome de Rio Preto para outros espaços culturais. “Eu acho que a cidade poderia falar: ‘Vamos patrocinar o Gustavo, ele está levando o nome da cidade para lá’”, afirma.

A Semana Portinari acontece de 14 a 23 de agosto, em Brodowski, e reúne atividades voltadas à preservação da memória e do legado de Candido Portinari, além de ações culturais e artísticas. (Colaborou Dandara Caroline)