Safra que se inicia exige cautela do produtor neste ano
O contraste climático extremo, entre as chuvas que ainda não são suficientes para garantir boas condições de plantio e as altas temperaturas em períodos distintos do dia, está marcando o começo da safra 2026–2027 no Noroeste paulista. Para os produtores, a safra é de incertezas da janela ideal para os cultivos e de como fazer investimentos com poucos recursos financeiros. Além disso, o ano agrícola, que tem início no mês de setembro, coincide com as previsões climáticas sob o efeito forte do El Niño.
Essas incertezas estão preocupando mais o agricultor e exigindo atenção redobrada com as decisões no campo, que ainda contam com os altos preços dos insumos à medida que a guerra no Oriente Médio se prolonga e reflete na alta valorização dos insumos para a abertura dos plantios. Produtos, como o petróleo e os fertilizantes importados dos países que estão em conflito, chegam mais caros, pressionando o custo de produção da agropecuária brasileira.
“Hoje, a maior dificuldade do produtor é ter uma cultura estabelecida e realmente prever a quantidade de colheita. Apesar de em anos anteriores já ocorrerem essas variações climáticas na região, em 2026 está muito diferenciado por conta do El Niño”, explica a agrônoma e agricultora, Juliana Roldão.
Ela comenta que, em apenas um dia, o agricultor precisa conviver com muitos contrastes climáticos. “Neste ano está mais atípico ainda, com o frio da madrugada, o vento ao longo do dia e a alta temperatura durante o período da tarde”. Diante disso, a planta não consegue se desenvolver, segundo Juliana, e o produtor arrisca a semeadura de algumas culturas, mas sem saber se as plantações não serão prejudicadas.
Juliana destacou ainda que esse ano a safra do tomate já apresentou baixa produtividade, além da batata-inglesa e da cebola. “Aqui na região de Rio Preto, como acompanho as colheitas de hortifrútis, não tivemos produtividade na colheita de tomate e de morango, porque o inverno foi mais úmido e essas culturas não produzem bem com a maior umidade, o que pressiona ainda mais os altos preços no mercado para o consumidor”.
Soja e milho
O agrônomo da Casa da Agricultura de Bady Bassitt, Lucas Nardim, explica que a soja e o milho são culturas importantes na região. Porém, neste ano, esses plantios estão mais incertos para o produtor na tomada de decisão no campo, principalmente por conta do fenômeno climático do El Niño. Na pecuária, Lucas afirmou que os produtores cultivam também sorgo e milheto para as silagens utilizadas na alimentação do rebanho.
“O risco de veranico, no início da semeadura, traz maior preocupação para quem tem roça, sendo que a soja e o milho exigem mais recurso hídrico para o início dos plantios”, comenta. Ele diz ainda que, como cautela, um recurso utilizado há algum tempo pelos produtores é o plantio direto para o cultivo dos grãos.
Impacto do extremo climático
Na agropecuária, o produtor lida com o negócio ao ar livre e, neste sentido, os impactos climáticos exigem maior atenção e cuidados tanto com as plantações quanto com os animais. Apesar do monitoramento de clima no qual os produtores se orientam, os especialistas explicam que a tecnologia disponível ainda não consegue atingir todas as propriedades rurais.
Com o fenômeno climático do El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico na porção equatorial, ocorre o impacto nos padrões de chuva e de temperatura em várias regiões do planeta.
No Brasil, a pesquisadora da Secretaria de Agricultura do estado de São Paulo (IAC), Angélica Prela Pantano, explica que o El Niño está atuante no Sul e Sudeste, trazendo chuvas bem acima do esperado. “Ainda tivemos várias frentes frias em todo o estado. Há ainda a previsão de chuvas para os meses de setembro e outubro”, pontua.
De acordo com dados do boletim agrometeorológico da Secretaria, na primeira quinzena de setembro, as temperaturas máximas médias foram elevadas em grande parte do estado de São Paulo, alcançando valores superiores a 28°C na região Noroeste.
Os pesquisadores explicaram que a combinação entre temperaturas crescentes, maior capacidade de retenção de vapor d'água pela atmosfera e a atuação de um El Niño forte cria condições favoráveis para a ocorrência de chuvas excepcionais, como a observada neste início da safra agrícola.
Para a região Noroeste, o agrônomo da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) de Rio Preto, Andrey Vetorelli, afirmou que os grãos, como soja e amendoim, são culturas que têm plantios previstos. “Normalmente, os produtores aguardam por chuvas de 100 milímetros para iniciar a semeadura dessas culturas”, ressaltou.
No entanto, o agricultor Reginaldo Massuia, que cultiva soja na cidade de Nhandeara, pontua que o mês de setembro foi muito atípico na região, com o clima mais frio. “Até agora a chuva não foi regular para o plantio do grão. Mas a gente espera conseguir plantar até mais cedo neste ano, se tivermos mesmo essas chuvas previstas e de pelo menos 70 milímetros para o cultivo da soja”. (CC)
Chuva na primavera
A primavera começou nesta terça-feira e termina no dia 21 de dezembro, às 18h50, no horário de Brasília. A estação chegou após um setembro frio e chuvoso em grande parte do Centro-Sul do país. Na região do Noroeste paulista, algumas cidades registraram chuva leve, com previsões de dias chuvosos até a primeira quinzena de outubro. No entanto, o El Niño deve trazer algumas alterações climáticas neste ano.
O fenômeno climático foi classificado pela agência norte-americana NOAA como muito forte e com o nível mais alto da escala. A previsão da agência é de que a maior intensidade ocorra entre novembro e dezembro, permanecendo em 2027, o que para os produtores rurais acende o alerta com o manejo no campo. (CC)

Juliana Roldão comenta os reflexos climáticos para os hortifrutis

Redação 



