Zema promete indulto a Bolsonaro e aos envolvidos no 8 de Janeiro

Zema promete indulto a Bolsonaro e aos envolvidos no 8 de Janeiro
Zema durante entrevista no Diário da Região - Marco Antonio dos Santos 28/7/2026

Em entrevista exclusiva ao Diário da Região nesta terça-feira, 28, o candidato do Novo à Presidência da República, Romeu Zema, jogou para o eleitorado bolsonarista

O presidenciável prometeu, se eleito, indulto ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e revisão das penas de condenados pelo envolvimento nos atos golpistas de 8 de Janeiro, negou que a quebradeira em Brasília tenha sido uma tentativa de golpe; atacou Lula, criticou ministros do STF e poupou os adversários no campo da direita, dentre os quais Flávio Bolsonaro (PL) e Ronaldo Caiado (PSD). Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

 

Diário da Região - O senhor chegou à convenção do partido na segunda-feira, 27, sem arco de alianças, sem vice e sem um cabo eleitoral do porte de Jair Bolsonaro. Essa dificuldade em conseguir apoio robusto não passa uma ideia de pouca fé nessa empreitada pelo Planalto?

Romeu Zema – Primeiro, o meu vice ainda não está decidido. Nós temos opções internas no partido. Temos também conversado com outros partidos. Em 2018 eu fui eleito a partir do zero. Naquela época nem capital político eu tinha, nem aparecia nas pesquisas. Mas, quando você tem início dos debates, quando o brasileiro começa a sintonizar com a eleição, ele, o eleitor, começa a ver que tem opção diferente. Nós já tivemos algum presidente empreendedor no Brasil? Já tivemos algum presidente empresário no Brasil? Em Minas Gerais deu muito certo. Tanto é que a minha gestão foi bem avaliada, aprovada e eu fui reeleito. E os políticos no Brasil já tiveram 100 anos para levar o Brasil adiante, e nós estamos vendo o Brasil ficar para trás no mundo. Está faltando visão empresarial em Brasília. Como governador de Minas, eu criei 1 milhão de empregos com carteira assinada, de acordo com o Ministério do Trabalho. Brasília só tem complicado a vida do brasileiro. É o político cada vez mais rico no Brasil, e o brasileiro cada vez mais pobre. É cada vez mais luxo em Brasília e o Brasil no lixo. Vamos mudar isso.

 

Diário - O senhor se apresenta como alguém de fora da política, mas governou Minas por quase 8 anos e agora quer ser Presidente da República. Pegou gosto por essa coisa de político?

Zema - Eu não sou político de carreira. Em 2022, que foi o ano da minha reeleição, estava fazendo um governo que já estava bem avaliado, já tinha colocado as contas de Minas Gerais em dia. Lá, funcionário público recebia salário parcelado em três vezes. Não se pagava 13º salário, não se faziam os repasses de ICMS, de IPVA para os prefeitos. E rapidamente eu consegui regularizar isso. Reduzi quase 50 mil cargos, gente que recebia sem trabalhar. Não levei um parente para trabalhar. E em 2022 o ano começou com greve, com manifestação dos sindicatos da esquerda querendo que o meu governo fosse afetado e eu não ganhasse a reeleição, e pleitearam 30% de reajuste no salário de um Estado que tinha acabado de quitar as dívidas. Eu fui para as TVs, fui nas rádios e falei: Eu posso dar 5% e prefiro dar cinco e perder a eleição e passar um Estado viável para o meu sucessor, do que dar 30%, ganhar a eleição e ficar com o Estado ingovernável nas mãos. Então o meu projeto não é político, é fazer o certo.

 

Diário - Agora o senhor está em nova jornada, uma disputa nacional. Justamente logo depois da convenção do Novo que definiu o seu nome como candidato a presidente, o senhor escolheu uma região que é fortemente bolsonarista. Onde o senhor, com certeza, vai tentar atrair votos de parte do eleitorado de Flávio Bolsonaro. Essa é uma das estratégias do senhor?

Zema - Quem está nos acompanhando deve estar cansado da polarização. O brasileiro parece que está votando contra alguma coisa e não a favor de alguma coisa. Meu governo não teve um escândalo, uma corrupção, um esquema em sete anos e meio. Um governo limpo. Não tem nenhum candidato que tenha criticado tanto o Supremo, essas aberrações de Brasília, quanto eu. Eu não tenho rabo preso. Por que os outros não criticam igual eu critico? Contrato de R$ 129 milhões de reais da esposa do ministro do Supremo. Contrato de 35 milhões de resort Tayayá. Eu tenho criticado, inclusive estou respondendo a um processo do ministro Gilmar Mendes. Agora quem andou de jatinho foi o ministro Gilmar Mendes e os colegas de Supremo dele, não fui eu. Eu moro em Belo Horizonte há quase 9 anos, nunca encontrei com banqueiro bandido. A minha bandeira é a da política limpa, é tirar esse tumor que tomou conta do Brasil, que se chama corrupção. E não tem nenhum outro pré-candidato que tenha minha ficha, porque a minha vida já foi vasculhada. Não encontraram nada, não encontram e inventam de vez em quando, aí eu estou sempre respondendo: Não se provou nada e nem vai se provar. Minha vida foi pagar impostos, foi ralar praticamente desde criança para colocar a empresa de pé.

 

Diário – Há uma avaliação de que a direita rachou e isso pode facilitar a reeleição do quarto mandato de Lula. O senhor tem feito discursos contundentes contra o PT e estrategicamente tirou o pé das críticas a Flávio Bolsonaro. O que há de irreconciliável entre o senhor, Ronaldo Caiado e o Flávio que impediu uma candidatura mais robusta de direita e menos dividida já no primeiro turno? O que impediu os senhores de se juntarem?

 

Zema - Avalie se a esquerda lançasse um outro candidato além do Lula. O total de votos da esquerda iria aumentar ou iria diminuir? Iria aumentar. Tem gente que é da esquerda, que não gosta do Lula e que possivelmente votaria nesse outro candidato. Você deve ter acompanhado as eleições do Chile, com diversos candidatos da direita, e no segundo turno todos caminharam juntos e derrotaram a esquerda. Se a direita tivesse ainda mais dois ou três candidatos, ela estaria era mais forte. Talvez tenha alguém que não goste de mim, que não goste do Caiado, não goste do Flávio e que gostaria desse outro. Então, diferentemente do que se fala, a direita não está rachada, não está desunida.

 

Diário - Considerando esses três nomes da direita, então, Romeu Zema, Ronaldo Caiado eFlávio Bolsonaro. O que o senhor tem a oferecer para o eleitor de direita, conservador nos costumes e liberal na economia, que seus adversários não têm para oferecer? Por que votar no senhor e não neles?

Zema - Estou indo para minha terceira missão. Eu tive uma missão no setor privado, não sei se eles tiveram, e, para mim, conta muito. Eu vivi o Brasil real, de quem precisa acordar cedo, trabalhar dez, doze horas por dia, pagar muito imposto, enfrentar as complicações de um estado burocrático, ficar aguardando anos por uma licença ambiental. Eu vivi isso. Não sei se eles viveram. E quando você vive uma realidade, você sabe o quanto ela pesa. Eles foram recebedores de impostos a vida toda. Há quanto tempo eles estão na política, eles e família? Eu sou o primeiro da minha família a ir para a política. Não teve um escândalo. Não encontrei o banqueiro bandido nenhuma vez, mesmo morando na mesma cidade em que ele nasceu, cresceu, estudou e mora. Então, eu tenho algumas diferenças e tenho uma visão muito distinta. A minha visão é que o Brasil que carrega essa nação é o Brasil que trabalha, não é o de Brasília, não.

 

Diário – O senhor cita o caso do Banco Master. O escândalo do banqueiro Daniel Vorcaro já atingiu o ex-líder do governo Lula, Jacques Wagner, e Flávio Bolsonaro, e consta uma doação de 2022 do pai de Vorcaro ao diretório do Novo em Minas. Como o senhor se posiciona sobre isso, já que esse tema vai ser abordado ao longo da campanha — essa questão da doação para o Novo de 1 milhão?

Zema – Eu desafio qualquer um aqui a levantar alguma matéria de 2022 em que o Banco Master e Daniel Vorcaro estivessem envolvidos, naquele momento, em alguma falcatrua. O partido Novo disputou o governo de Minas, disputou diversos cargos federais e estaduais e recebeu doações de inúmeros doadores em Minas Gerais. Uma delas é essa pessoa que você falou, que eu não conheço pessoalmente. E um detalhe importantíssimo, não só desse doador, como de qualquer outro que o Partido Novo recebeu. O partido nunca assumiu que vai fazer qualquer ação em benefício daquele doador. Nós recebemos porque alguém acredita nas causas, nos princípios do partido Novo, que é combate à corrupção, que é combate a privilégios, que é gente de ficha limpa, gente competente. Até eu achei que eles tivessem doado porque acreditassem nisso. Me parece que doaram para um partido que combate aquilo que eles fizeram. Até fiquei muito surpreso por esse lado. Agora, foi uma doação que seguiu todos os critérios legais. Inclusive, ninguém questionou essa doação na época. Têm questionado por que foi feita naquele momento. Pelo que tudo levava a crer, eles acharam por bem doar, mas nunca se beneficiaram. Procure uma lei que alguém do Partido Novo tenha feito e que possa tê-los beneficiado. Não existe isso. E eu nunca sequer encontrei pai, nem filho, nem ninguém da família, nem como pessoa, nem como governador. E, comigo, governador, ele sequer pediu uma audiência, porque sabia que era raposa e que eu estava ali na porta do galinheiro, com uma espingarda, para poder resolver o problema dessa maneira. E agora levantam essa questão como se isso fosse me afetar. Não afeta em nada, porque foi tudo da maneira legal e muito antes de qualquer questão ser aflorada.

 

Diário - Segurança é uma angústia do brasileiro e o senhor tem abraçado essa questão de uma forma que parece mais um slogan de campanha do que um programa de governo para segurança. O senhor fala em construir um megapresídio numa região mais afastada. O senhor já citou a redução da maioridade penal para 14 anos. Aumentar presídios e encarcerar adolescentes está longe de ser uma solução para a segurança, Qual é a ideia de Romeu Zema para enfrentar facções que se infiltram nas instituições, para combater de fato os criminosos e o brasileiro dormir em paz?

Zema - O grande problema do Brasil são os incentivos. No Brasil, ser criminoso vale a pena. No Brasil ser empreendedor, criar riqueza não está valendo a pena. Eu vou mudar os incentivos. Em Minas Gerais, apesar de eu não legislar sobre questões penais, já que é tudo centralizado em Brasília, no Congresso, eu consegui avanços muito expressivos na segurança pública. Depois, olhe o evento que nós tivemos em Minas Gerais, ainda no início do meu governo, na cidade de Varginha. A Polícia Militar de Minas Gerais, por meio da sua inteligência, detectou que 28 homens alugaram uma chácara lá no Sul de Minas. Foram fazer uma vistoria para ver se era uma festa de formatura, se era um retiro espiritual. Chegaram lá, foram recebidos a bala. Pediram reforço e teve um confronto, resultado: 28 criminosos mortos. Na época foi bem noticiado isso e encontraram lá um arsenal de guerra. E depois desse evento em Minas Gerais, essas ações que esse tipo de gente faz, que são chamadas de novo cangaço, que é ir a cidades menores e explodir caixas e agências bancárias, praticamente acabaram em Minas Gerais. Nós chegamos a ter 260 ocorrências durante o governo PT por ano, que me antecedeu. O ano passado, em vez de 260, nós tivemos duas ocorrências. E isso foi muito em virtude da minha orientação para as forças de segurança de Minas Gerais, seja todo o rigor da lei no combate à criminalidade. Foi zero invasão de terra. Então, quando você fala: Eu vou fazer tudo que é possível para combater a criminalidade, até com as leis atuais, você já consegue avançar. O presidente Lula falou no ano passado que traficante é vítima da sociedade. Para mim, traficante é um aproveitador que quer que os seus filhos usem droga para ele ficar milionário ou bilionário. Em Minas, nós avançamos contra o crime, contra a corrupção. Procure um escândalo. Eu quero enquadrar as facções e organizações criminosas como grupos terroristas e vou colocar Exército, Marinha, Aeronáutica, Polícia Federal, Receita Federal, COAF, tudo contra eles. Essas organizações estão infiltradas em todos os lugares, por isso que o Estado brasileiro não as combate. Tem muita gente mamando do crime organizado. Agora, nós já tivemos um presidente que assumiu lá em Brasília e falou: Eu quero que se investigue tudo e puna todos os culpados? Ou só tem presidente lá que fica colocando pano quente nas investigações, protegendo.

 

Diário – O senhor fala bastante das suas ações enquanto governador de Minas, mas também há notícias do elevado endividamento do Estado, e também que, durante sua gestão, obteve uma liminar para não ter um pagamento de forma imediata. Teve ainda um reajuste de salários para governador e secretários de quase 300%. Esse tipo de posicionamento não contradiz um pouco essa imagem que o senhor busca vender de um gestor fiscal exemplar?

Zema – Desde 1º de janeiro de 2019, quando eu tomei posse, todo o meu salário é doado, principalmente para as Apaes de Minas Gerais, onde eu fui governador. Para quem doa salário, se você tá ganhando 10, 20, 50 ou 100, não faz diferença. E o que acontecia em Minas, e ninguém teve coragem, mas eu tive, é que lá o secretário ganhava R$ 7 milpor mês, secretário de Estado de Educação, de Saúde, que é menos do que qualquer secretário municipal ganha. Tenho certeza de que, em qualquer cidade pequena aqui do interior de São Paulo, um secretário de Educação e de Saúde ganha mais do que isso. Lá em Minas ganhava R$ 7 mil, só que tinha uma série de jetons e penduricalhos. Eu falei: Eu gosto de trabalhar com transparência. Se é para ganhar R$ 25 mil, que seja R$ 25 mil, pronto e acabou. "Antes ganhava R$ 7 mil e ficava pagando mais R$ 50 mil por fora, em outras coisas.

 

Diário - Como o senhor pretende melhorar o SUS, a educação e a rede de proteção social num país com tantas desigualdades sociais?

Zema – O Brasil tem a maior área para agricultura do mundo, tem condição de produzir mais energia renovável do que qualquer outro país. Tem um povo que, se bem orientado, trabalha muito. Não tem terremoto aqui, tem de tudo aqui, aqui não falta recurso. Qual é o problema aqui? Sobra ladrão. E em Minas Gerais, quando eu acabei com os ladrões, sobrou recurso para educação. No ano passado, foi o Estado em que a alfabetização mais avançou. Na área da saúde, só tinha obra parada, vandalizada: seis hospitais regionais totalmente depredados, 90 UBSs — tudo concluído hoje, na minha gestão. Quem andava nas estradas de Minas sabe como era lá em 2019, quando eu assumi, e como está hoje. Melhorou muito, ainda tem o que melhorar, mas já melhorou muito. Eu reduzi 50 mil cargos de gente que não trabalhava, só recebia, e quando você faz isso, começa a sobrar dinheiro para o social. Eu vou muito nessa linha. O Brasil tem bons programas sociais que precisavam, inclusive, ser robustecidos.

 

Diário - Por exemplo?

Zema - O próprio Bolsa Família, que vamos manter, mas aperfeiçoá-lo. Eu quero que ele tenha porta de saída muito maior do que a de entrada. Quero que quem cuida de idoso e de criança tenha uma condição toda especial, e quem é marmanjo e fica recusando oportunidades de trabalho tenha o seu pagamento suspenso. Dá para aperfeiçoá-lo muito.

 

Diário - Caso seja eleito, o senhor vai assinar o indulto ao ex-presidente Jair Bolsonaro e aos demais envolvidos em 8 de janeiro?

Zema - 8 de janeiro foi golpe? Se foi, na minha opinião, é o primeiro golpe da história que os historiadores vão colocar em seus livros, em que não houve disparo de um tiro, não houve derramamento de sangue, não houve envolvimento de forças ou movimentos armados. O que aconteceu naquelas condenações é um absurdo. Como aquela moça que sujou o monumento e que foi condenada a 14 ou 17 anos: ela precisa ser punida? Precisa. Ela sujou um monumento público? Sujou. Mas é uma punição de meses, ou de cesta básica, que a maioria das pessoas paga. Então, houve ali um julgamento político, e não um julgamento judicial, e nós vamos rever. E, na minha opinião, o Brasil já teve anistia que soltou sequestrador, que inocentou assassino.

 

Diário - Jair Bolsonaro vai ser indultado?

Zema – Vai. Precisamos passar uma régua nessa questão. O Brasil está carregando um peso que precisa ser resolvido. Vamos olhar para o futuro. Chega dessa polarização. Essa questão fica levantando a polarização. Quem foi da esquerda que matou, que sequestrou, foi indultado. Os de direita não fizeram nada disso.